Os nomes vão se espalhando pelas névoas, cada dia mais intensas. Mas eles nunca foram fáceis de se guardar. Alguns sorrisos ainda atravessam o tempo feito raios, guardo semblantes como quem guarda caixinhas de presentes dentro do corpo. Vou achando lugar pra cada um que me marcou, seja pelas boas impressões, seja pelas micro-expressões. Talvez este seja o único arquivo que mantive organizado e atualizado ao longo da vida. Sempre fui capaz de guardar um olhar atravessado, sinalizado… uma intenção silenciada por um lábio cerrado é capaz de ficar na minha cabeça por anos. Já o nome da criatura? Perco de vista na primeira esquina que eu dobrar. Segundos depois não faço mais a menor ideia. Seus silêncios sim, todos eles faço questão de guardar comigo. Seu olhar, seu medo de falar, o vasto campo de tudo que é dito sem querer, sem pensar… todo seu jeito de não falar, de torcer o nariz, de virar os olhos, de respirar. Esses sim. Nosso melhor cartão de visitas eu guardo por muitos e muitos anos. Adoraria jogar fora a grande maioria, mas não consigo. Com o tempo eles foram se transformando nos meus relatórios invisíveis, viraram meus escudos no meio da minha névoa de nomes, sobrenomes, descobertas e surpresas. O tempo tem escondido tanta coisa de mim. Antigamente todos os dias eram muito claros e óbvios. Hoje em dia, graças a deus, não mais. Há neblina… E eu, que morria de medo dela, hoje paro, espero e deixo que ela me mostre o que quiser me mostrar. E tem sido tudo tão fácil de compreender… Tudo tão mais bonito. Que arquivo bonito eu consegui esconder de mim mesma. Não virou um superpoder, mas um livro bom que eu ainda gosto de ler.



