Infelizmente não sou muito de ir a shows, sou menos ligada a música do que gostaria, mas essa noite sonhei que estava em uma apresentação da Rita Lee, pedia pra ela parar de cantar, chamava a Florence e saiamos as três sobrevoando uma praia e jogando tinta de cabelo vermelha nos banhistas. Riamos e dançávamos no céu, vestidas em vestidos cintilantes borrados nos tons vermelhos das verdadeiras e das falsas ruivas. Abri os olhos, levantei da cama e estava aqui pensando que nunca fui no show de nenhuma das duas, mas que a Rita é uma das poucas que canta profundamente dentro de mim e a Florence faz clipes que se parecem tanto com os meus sonhos e pesadelos que chego a achar que ela tem acesso a eles. Tomei café, tocou o telefone e uma amiga do outro lado da linha…
- Tenho ingressos pra ver Florence and the Machine hoje a noite. Topa?
“I am done with my graceless heart. So tonight I’m gonna cut it out and then restart.”
Nunca perdi tanto tempo quanto perdi nessa tentativa insana de construir relações de amor. Além do período da paixão que não passa de uma obsessão pessoal, não existe nada além do amor próprio (ou da falta de) que nos faz escolher o silencioso jogo de interesses que estabelecemos em busca de algum tipo de paz ou prazer, até que ele acabe em algum tipo de morte ou surto. Alguém sempre vai pagar um preço alto por essa brincadeira de mau gosto que nos ensinaram a acreditar. E tanto faz se você discorda ou não. Se hoje você estiver ganhando vai querer argumentar dizendo que não é bem assim e se estiver perdendo vai preferir nem ter começado a ler isso. Mas não se desespere… Ainda não é tão difícil encontrar alguém mais ingenuo que goste mais do que você será capaz de gostar e aceite te devolver um pouco do que já te tiraram. E se te consola saber que há quem já perdeu mais do que você… Até aqui, eu perdi minha vida. E uma boa grana… De caixinha! Gratidão pelas flores.
- Você o quê? - Tô indo para uma peregrinação… - Sério? Que legal! Santiago de Compostela? - Nem tudo o que é peregrinação é Santiago de Compostela, sabia!? Vou para o Espírito Santo, é um caminho chamado Passos de Anchieta. - Peregrinação no Espírito Santo? Tá maluca!? - Ué, se eu estivesse indo para uma peregrinação na Europa seria legal, mas se é aqui no Brasil é maluquice? Brasileiro é um bicho esquisito, né? O povo sem auto-estima… - Blá, blá, blá… Fala sério, Ale! Espírito Santo? Passos de Anchieta? Anchieta, o padre José de Anchieta? Sei… E desde quando você é religiosa? - E precisa? - Nem sabia que ele tinha caminho com o nome dele… Já sei! Você apelou pra algum santo te ajudar com alguma coisa que você queria, conseguiu e agora tá com medinho pagando promessa. - Claro… Eu, a pagã, com medo de santo… - Então só pode ser pra emagrecer! Vai andar pra perder uns quilos. - Que emagrecer o que, menina! Estou até pensando em aproveitar a região e fazer duas peregrinações: durante o dia sigo os Passos de Anchieta e a noite corro atrás da melhor moqueca capixaba… - Medo de chegar aos quarenta anos sem ter pensado direito na vida! É isso! - Ainda tô longe dos quarenta… - Anram… Sei. - Você não tá namorando nenhum pescador, não né!? - Olha… Até que não seria má idéia não… - Ale, não inventa! Era o que me faltava você querer viver de amor e cação a essa altura do campeonato. Você não tem mais vinte anos! Se liga! - E viver em São Paulo trabalhando quinze horas por dia, chamando bares e festas de diversão e tentando sorrir pra quem morre de medo de dar até bom dia é mais legal do que viver de amor e cação? - Ai, meu Deus… E não é que é isso mesmo? Você conheceu algum pescador pela internet e tá indo conhecê-lo pessoalmente… - Não… Não conheci nenhum pescador. Mas não acharia ruim se tivesse conhecido. Imagina que história linda isso não daria… - Olha, falando muito sério, aproveita esse seu caminho espiritual aí e pede pro Anchieta te curar dessa necessidade de só ver graça na vida quando está apaixonada ou escrevendo. Isso sim não está certo… Tem outras coisas na vida que são legais, nem tudo tem que ser paixão ou história bonitinha pra você colecionar e sair escrevendo. - É…? E o que mais é legal? - Ah, sei lá… Assim de sopetão eu não sei dizer, mas que a vida é muito mais do que isso, isso é! - Eu concordo contigo… Mas acho que gosto é uma espécie de filtro que faz a gente conseguir olhar pra vida com um pouco mais de clareza e tranquilidade. E o meu filtro predileto é a paixão. Que é que eu posso fazer contra isso? Seria como te pedir pra parar de pintar. Você conseguiria? - Não. Mas você insiste em usar só esse filtro. Escolhe outros, pombas! - Quem sabe não encontro outros filtros nos 100 km dos Passos de Anchieta? - Querida, na boa… Você já foi picada por cobra zanzando pela região do Pantanal, já atravessou a pé a fronteira da Colômbia no auge das más notícias sobre as FARC, já foi presa pelos guardas da residência oficial do senhor Hugo Chávez, correu atrás de vulcão em erupção no Equador, deu banana para os sinais alienígenas do Peru, já cruzou a America do Norte uma barca velha… - Barca velha!? Era um Mustang V8! Tá louca!? - Que seja! Você vive fazendo essas coisas e nem filhinha de papai você nasceu! A brincadeira é cara, você não desiste, não cuida do seu futuro e nunca se dá por satisfeita. O que mais você quer? Você acha mesmo que 100 km a pé te farão compreender alguma coisa que já era pra ter aprendido em quarenta anos de vida? - Trinta e cinco, por favor… O tempo por si só já passa depressa demais. Não careço dos amigos arredondando minhas experiências. - Alê… Larga mão de ser perdida, esquece essa história de Espírito Santo e vem pra cá passar o réveillon com a gente que você ganha mais. Além do mais, não é certo você passar o Natal e o réveillon sozinha depois de tudo o que aconteceu esse ano. - Eu não tenho do que reclamar, Alice… - Isso está é me cheirando um “Comer, rezar e amar” de pobre… Isso sim! - Eu agradeço o convite pra passar o fim de ano novamente com vocês, mas vou peregrinar. Faz muito tempo que penso sobre isso, não tem nada a ver com paixão, com escrever, com nada disso. Só estou realmente precisando ficar um pouco sozinha e oxigenar a cabeça. - E sair por aí caminhando sozinha vai ajudar? - Ser obrigada a seguir em frente vai ajudar… - Hum… É impressão minha ou isso ainda tem alguma coisa a ver com o Wil, Alê? - Não, não tem… Está tudo bem quanto a isso. Mas me conta de você… Como estão as coisas por aí? - Tudo bem… Eu e o Silvio vamos passar o Natal por aqui, mesmo esquema de sempre: sem família, sem comilança, sem papai Noel. - … - E se eu bem te conheço você vai de carro aí de São Paulo até Vitória… Acertei? - Anram… - Mil quilômetros de carro por essas estradas horrorosas, sozinha e nessa época do ano onde as pessoas bebem e se matam nos acostamentos… Ótimo pacote de viagem! - Eu dirijo com cuidado… - Ok, você quem sabe… Eu entendo que você adore dirigir, mas não entendo pra que correr tanto perigo à toa. - E vou estar mais segura dentro de casa, assistindo os fogos de Copacabana pela TV e esperando a vida passar? - Não… Mas você pode vir de carro e ver os fogos pessoalmente, pode passar o réveillon aqui com a gente. As estradas até o Rio você já conhece, são muito melhores e dá pra andar pela orla de Copacabana, todos os dias como se fosse peregrinação. O que acha? - Eu já passei o Natal com vocês no ano passado. Se eu fizer isso de novo até a minha família vai começar a sentir ciúmes de você e do Silvio. - O ano passado não conta… Você estava se separando, eu tinha acabado de receber o laudo da biopsia, estávamos todos muito abalados emocionalmente. - Eu agradeço de todo o meu coração, mas encanei que tenho que ir até Vitória. - Ok… Você sabe o que faz. Mas dirija realmente com cuidado, ok? A gente se preocupa com você. - Obrigada, querida… Eu também amo vocês.
Alice é minha amiga há alguns anos, moramos em cidades distantes, mas é como se ela me conhecesse tão bem quanto minha família. Completamente independente e geniosa, ela é o tipo de mulher que se basta, alimenta um zelo muito especial pelo bem estar dela e do marido, mas é avessa as festividades e obrigações afetivas das famílias comuns. Sou deles uma espécie de amiga-passarinho, dessas que vive batendo as asas por aí, mas volta de tempos em tempos para cantar em suas árvores. E, sabe-se lá deus porque, mesmo eu sendo tão ausente, eles gostam de mim como se eu fosse parente.
Desliguei o telefone com o coração agradecido… Em momento algum ela falou ou me deixou falar sobre ela enquanto conversamos. Um ano de tratamento contra um câncer que a virou do avesso e ela parecia mais preocupada com a minha solidão do que com a própria recuperação.
Respirei fundo, fui até o quarto, enchi o mochilão de viajante com as roupas mais leves que eu podia, fiquei na dúvida sobre quantos tênis eram necessários em uma peregrinação e empurrei o mais velho além do mais novo junto com as roupas para que o zíper fechasse até o fim. Joguei tudo dentro do carro, programei o GPS para ir de São Paulo a Barra do Jucu, na cidade de Vila Velha no Espírito Santo e uma sensação arregaçadora de medo me fez abraçar o volante e pensar em desistir.
E se eu batesse o carro? E se batessem no meu carro? E se eu morresse no meio da viagem? E se eu não aguentasse andar tanto e todos os dias? E se eu ficasse muito triste e não quisesse nem sair da pousada? E se eu estivesse errada e caminhar durante todo o trajeto da peregrinação fosse o mesmo que andar quatro horas seguidas em uma esteira automática? E se eu realmente estivesse fugindo? E se tudo isso fosse porque não consigo me livrar da culpa que sinto pelo fim da relação com o Wil? E se nada do que eu fizesse me desse a coragem necessária para encontrar um pouco de paz?
Um turbilhão de perguntas ruins invadiu minha cabeça, mas lembrei novamente da Alice, com seu cabelo raspadinho crescendo e a fazendo sorrir o dobro do que a fez chorar durante o ano que findava. Eu juro que sai de São Paulo sem fazer a menor ideia do que estava indo buscar em uma peregrinação, mas ali naquele momento dentro do carro, o que me fez dar a partida e seguir em frente foi uma única certeza…
Era dia 24 de dezembro e eu podia não ter coragem suficiente para ligar o carro e ir até o Espírito Santo, mas tinha para ir até o Rio de Janeiro, dar um beijo na careca abençoada da minha amiga e agradecer por ela estar viva e eu poder passar mais um Natal ao seu lado.
Não precisei reprogramar o GPS, a ida até a casa dela já era familiar, mesmo que distante. Dei a partida, pisei levemente no acelerador e segui em frente. No mesmo instante, meu medo parou de me assombrar, sentou no banco do passageiro e colocou o cinto de segurança. Viajamos sem trocar nenhuma palavra… Pelo menos enquanto estivemos no Rio de Janeiro.
Eu gosto de você. Gosto num quase amor, num quase desejo, num quase desespero pelo encaixe dos seus braços. Gosto feito oração a espera de que tudo o que for “quase”, desapareça da frase. Eu gosto de você… Fico engasgada a maior parte do tempo tentando ser clara, mesmo estando de olhos fechados, mesmo sem saber se o que eu quero daqui é o mesmo que se quer daí. E você sempre parece que não entende os meus porquês e eu, mesmo sem saber, explico tudo até pra mim mesma. Teve alguma coisa nesse seu jeito de olhar que me prendeu desde o primeiro instante, sabe? Algo que me dispara frios na barriga, te despe a distância, me deixa nua, me faz sua. Algo que me faz contar os segundos, atropelar as vontades diante do seu silêncio e cócegas toda vez que você sorri. Um troço gostoso que me faz traçar planos para roubá-lo pra mim, com ou sem o seu sim. Não sei direito como, mas fui lendo, lendo, te vendo e te querendo a galopes do corpo aos pensamentos. E você me fez dizer oi, me desfaz em silêncios, me faz gostar em guerra, ligar em paz, brincar de esconde-esconde, desejar cantando, desejar que viesse, desejar que ficasse. E me faz pensar um pouco de tudo sem me dar quase nada além de vontade, a vontade que me devolve o sentido e os sentidos. E engoliu meu tempo, todo o meu discernimento e ainda me faz implorar todos os dias para que venha pra cá, acalme de vez esse meu coração e o torne doce ou o aperte bem esmagadinho, jogue no lixo e no mundo sem paixão que eu estava antes de te conhecer. Sabe quando você disse e “todo mundo vai te magoar, resta saber por quem vai valer a pena sofrer”? Vem me fazer sofrer vem… Eu quero. E me prometo sem palavras e só com um pouquinho de segredo.
Ontem inventei de testar algumas redes sociais de voz e acordei com tanta saudade de mar que perdi um pouco do bom senso, entrando no chuveiro e… Espera. Tá com o som ligado aí? Melhor abaixar, que é pra não assustar os vizinhos… Que tal uns fones de ouvido? Tem aí? Que bom… Mas ó, não vale me zoar muito, tá? Eu sei que é dar muito mole pra vocês sentirem vergonha alheia, eu sei… Mas, enfim… A foto do “mico número 1″ tá pequenininha, mas é linda. Foi tirada em um dia bom em Paraty, eu mesma que bati. A do “mico número 2″ também é a coisa mais linda, mais cheia de graça… Fez ele realmente parecer estar aqui.
No mais, aperte o play e se prepare para perder dois minutos da sua vida, preso comigo no banheiro. E me perdoa a intimidade, mas…
Ouviu? Pois é… Aí, não satisfeita com o papelón da minha chuveirada matutina, a noite, fui parar na banheira… Na banheira com o Vinícius! E até que foi bom pra mim, sabe? O final ficou meio ruim, mas o papo com ele foi tão bom que decidi voltar a me divertir mais vezes na minha banheira…
Ok, ok… Também estou com vergonha de mim. Mas pelo menos ainda posso aprender a fazer isso direito, ter aulas, sair do banheiro e virar uma estrela do rock, tá? Se até o Axl Rose e a Paula Toller aprenderam, eu também posso! :-b
Passei dez anos da minha vida acreditando nos contos de fada que eu lia, mais uns dez experimentando ser a princesa de alguns príncipes, a bruxa malvada de alguns sapos. Mais alguns anos, os últimos, tentando simplesmente ser uma mulher, dotada de todos os meus encantos e desencantos. Agora, depois de tantos erros e acertos, me vejo recolhendo a ponte do meu castelo, me distanciando e rezando… A gente cresce lendo romance e passa a vida vivendo suspense. Habitamos cenários de thrillers de terror e decoramos feito comercial de margarina. Tenho rezado… Rezado para que não seja uma verdade absoluta o que acontece nos dez anos seguintes, o depois do questionável “felizes para sempre”. Rezado para que realmente existam finais felizes e homens e mulheres com almas bem estruturadas para vivenciá-los… E que um dia, na véspera do meu final, eu consiga reconhecer os príncipes, os sapos, a princesa, a bruxa, meu afeto sem disfarce, meu homem… Mas, principalmente, que eu encontre a serenidade necessária para fechar os olhos e ir embora sem ter nenhuma dúvida sobre a felicidade e os caminhos de como chegar até ela, mesmo que seja tarde demais.
* via papo com a Ligia Ribeiro… A melhor ilustradora de MSN de todos os tempos.
Fase número 1 da vida de solteira de uma mulher que se acha inteligente…
Nunca mais quero saber de homem! Eu tenho um cérebro a zelar!
Fase número 2 da vida da cerebral…
Que tédio essas pessoas do Twitter… Preciso renovar meu círculo de amigos que pensam.
Fase número 3 da vida da miss inteligência…
OK. Dane-se tudo. Vamos às baladas… Eu tenho um cérebro, mas também tenho peitos.
Fase número 4 da vida da solteira nerd e fiel aos seus princípios…
Deus, não permita que eu acabe igual a essa mulherada desesperada da balada…
Fase número 5 da criatura que acha que pensa…
Tenho outros interesses na vida… Onde está aquela série de TV que eu adorava mesmo?
Fase número 6…
Hum… encontro anual dos fãs de Star Trek? OK. Qualquer coisa menos balada.
Fase número 7…
Sou uma mulher inteligente, odeio balada, posso passar a noite inteira conversando sobre vulcanos, efeito doppler, o experimento do Gato de Schrödinger, nunca mais pensar em sexo, amor, vida afetiva estável e outras baboseiras sentimentalóides de mulher. Sou muito mais do que tudo isso e ponto. Vulcanos…
Fase número 8 da vida da solteira nerd…
Em toda a galáxia, acho que eu sou a mulher que mais ouve “eu te amo” e dorme sempre sozinha…
Fase número 9…
Estou de saco cheio desses gatos vivos e mortos dentro das caixas! Porra de TPM… Ai, ai… Vulcanos…
Toda vez que eu me sentir presa em um lugar, a uma pessoa que não me goste do jeito que gosto, a um trabalho que me consuma mais do que me cause satisfação, a uma decisão que pareça imutável, um pensamento que me adoeça ou qualquer situação que não me faça bem… Por favor, não me deixem esquecer desse cachorro. Quero guardá-lo na lembrança para as horas que o meu medo for maior do que a minha angustia. Mesmo que eu me arrebente pulando, quero ser o cão que acha uma saída, não mais um dos que se conformam.