Desde ontem, enfiei-me dos pés a cabeça no vazio de uma página em branco, tentando recheá-la com todas as palavras doces que substituíssem a cobertura de um bolo que – só dessa vez – não estarei perto para preparar junto com ele. Ele? Ele é o moço que tem deixado minha vida mais leve e alegre desde o ano passado. Um amor tranquilo e cheio de planos possíveis, mesmo quando o tempo se faz necessário. Hoje é aniversário dele, mas é como se o presente fosse meu. E, desde ontem, nas vésperas, por mais que eu me esforçasse pra tentar lhe dar um presente bonito lambuzado de poesia, tudo o que atravessava o meu peito era a lembrança do seu sorriso e um tanto enorme de gratidão pelo fato dele existir. O conheci no finalzinho de um dos anos mais legais que a vida me deu, mas que se parecia tanto com uma novela mexicana que eu jurava que ele não fosse aguentar. Mas, mesmo diante de tantos turbilhões, no final do dia, os dias mais serenos e inteiros foram vividos quando estávamos juntos. E eu só pensava em agradece-lo por essa capacidade maravilhosa de ser apaixonante sem deixar de ser centrado e não deixar o amor da gente se perder.

Obrigada, querido… Obrigada pelo presente de viver tão intensamente o momento presente e, ao mesmo tempo, saber acalmar tão bem todo esse meu espírito ruim, deixá-lo manso feito um bicho domesticado. Obrigada pelo amor declarado, pela amizade inevitável e por essa paixão arretada que me faz olhar nos seus olhos, confiar e atravessar qualquer oceano. Obrigada por ter aprendido a dar tanto carinho e honesta atenção as pessoas que você ama e me fazer sentir tão especial entre todos vocês e ao seu lado. Obrigada por ter me acolhido e mostrado o que realmente importa, dia após dia, mesmo quando eu sinto medo. Obrigada por ter respeitado a nossa intuição e guiado nosso desejo, mesmo quando tudo parecia distante e diferente. Obrigada pela coragem de ter ido se encontrar com uma brasileira esvoaçante, vestida de cobertor colorido, no meio de uma praia tão cheia de sobretudos. Obrigada por ter feito da praia que você cresceu, um pedaço bom de praia minha, o mar de inverno que melhor aqueceu minha pele e meu coração. Obrigada pelos dias frios mais quentes da minha vida… E, principalmente, por ter feito eu esquecer qualquer desespero por baixa temperatura assim que abri a porta e desejei não desgrudar nunca mais do seu pescoço. Aliás, obrigada por não ter desgrugado de volta :-) Por toda a sua sensilibilidade, os abraços que nunca me deixam com vontade de partir, pelos sonhos compartilhados e os sorrisos faceis. Por amar sem jogar, por ser tão franco e direto, por me colocar na linha… Por todo o seu talento e jogo de cintura pra lidar com as aparentes dificuldades da vida, pela sutileza com que é capaz de ir conquistando um coração sem que ele se dê conta, por esse humor delicioso que me faz tão bem. Por me fazer rir e despertar cada dia melhor mesmo quando acordo tão cheia das minhas chatices. Por esse olhar tão precioso capaz de enxergar beleza e poesia nas encostas das estradas até mesmo quando o tempo não é favoravel. Aliás… Obrigada por ser tão boa companhia de estrada… Só Deus saberia te dizer o quanto eu estava tomando gosto pela vida de andarilha :-) Obrigada pelos dias vividos nas nossas casas temporárias em Leiria, Porto, Paris, Campinas, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraty e outras tantas que temos sonhado construir… Por não me deixar sonhar sozinha e ser tão melhor em planejamentos e surpresas do que eu… Por ser firme sem deixar de ser doce e por me fazer esquecer todos os seus defeitos só porque é seu aniversário, obrigada. :-) E, por ter nascido e se tornado o homem que você é, parabéns amor. Tem sido uma delícia te conhecer e amar nesse tanto todo que tenho descoberto, o melhor presente do meu presente.



Escrito pela Alê Félix
5, agosto, 2013
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Fui de carro até o Burdog, coloquei o carro no estacionamento e fui a pé até a avenida Paulista atrás de algum sinal de esperança, algo que me fizesse acreditar que esses protestos não eram só mais uma bagunça manipulada por algum partido ou repleta de interesses que ferram a minha fé nesse planeta.

Até a semana passada eu não fazia nem ideia de quanto custava uma passagem de ônibus, mas graças a deus ainda não virei o tipo de pessoa que anda de carro e acha que o problema com o transporte público não lhe diz respeito. Também dou graças a deus por ainda me incluir no bolo quando digo “o povo isso ou aquilo”. Posso viver no meu mundinho classe média, mas sou gente do povo, faço parte do povo concordando ou não com a maioria. E chamo isso de senso comunitário, algo que infelizmente não aprendemos o significado na mesma época que aprendemos a falar “papai” e “mamãe”.

Sempre fui contra violência e atos de vandalismo, mas compreendo que não dê pra ter sangue de barata diante da cara de pau dos políticos que disseram ontem que não iam subir o valor da passagem e hoje já estão dizendo que vão subir alegando absurdos, quando na verdade vão subir porque baixar o valor agora é dar moral pro “povo” e aí vai ser muito difícil transformá-lo em gado novamente. Não concordo, mas compreendo que dê realmente vontade de quebrar tudo, inclusive a cara de quem quebra ou é contratado pelo governo pra quebrar tudo, porque assim o governador do estado pode pagar de defensor da lei em rede nacional dizendo que a violência desses protestos precisa ser combatida. Não concordo de jeito nenhum com a atitude de quem depreda a cidade nessas horas, mas… na boa? Mais depredada do que a vida de quem mora nas periferias e perde quatro horas do dia dentro de um ônibus pra ganhar salário mínimo, acho impossível. E me arrebenta o coração ver uma merda toda como essa, mas compreendo e sinto vontade de revidar junto com quem parte pra agressão diante de um policial que devia se posicionar do nosso lado, mas sente prazer ao enfiar spray de pimenta na nossa cara na primeira oportunidade.

Até hoje a tarde eu achava que se existia alguma liderança nesses protestos, era uma liderança burra por tê-los direcionado contra o aumento das tarifas. Agora não acho mais. Acho que pode ter sido uma boa jogada expôr toda a palhaçada que virou esse país e fazer com que até uma almofadinha feito eu saia do sofá e vá pra rua virar povo novamente. E eu espero honestamente estar certa. Espero que fique visível pra todos nós que não se trata dos vinte centavos, mas sim de uma grande insatisfação que bem ou mal tem batido na cara de todos nós. Um de puta de um saco cheio que transbordou e foi parar na rua com a bandeira que era possível. Saco cheio de tudo. Saco cheio de trabalhar mais do que viver, saco cheio de viver pra pagar impostos e enriquecer um país que não te devolve nada, nenhum centavo em qualidade de vida, segurança, saúde, infra-estrutura… nada.

Tá rolando uma guerra interessante lá fora e, como em qualquer guerra, é normal que a gente fique com medo e dúvida ao se meter no meio dela, mas tenho a leve impressão de que essa pode valer a pena. E espero que a maioria de nós pelo menos aproveite o momento pra parar de olhar pro próprio umbigo e a defenda mesmo se mantendo de fora. Não reclamamos a vida inteira de que brasileiro aceita tudo calado? Pois então… Talvez seja a hora de pararmos de reclamar do trânsito, do lugar certo pra reivindicar ou do quebra-quebra. Foco errado. Tá rolando um pingo de chance dessa briga não ser por qualquer trocado, mas sim por um bom legado. Algo que, pagando ou não essa passagem, nenhum de nós vai deixar enquanto viver for a ilusão social que é vivida hoje no Brasil.



Escrito pela Alê Félix
14, junho, 2013
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Há uns três anos, enquanto eu dirigia e tagarelava com um amigo sobre felicidade, bati os olhos em um rosto familiar que caminhava pela calçada ao lado de duas moças e…

- E se nada sair como o que foi planejado você faz o que?
- …
- Olha, não sei… A gente vive jogando para o futuro a felicidade que deseja no presente, quando na verdade… Ei! Acho que eu conheço aquele sujeito… Hum… Quando… Quando a felicidade na verdade é só… CARACA É O GUSMÃO!
- Anh!?

Óbvio que aquele nome só faria sentido para os amigos que estudaram comigo nos anos oitenta. Interrompi o papo sobre felicidade, parei no meio da rua, larguei o amigo com cara de pastel de vento dentro do carro e sai correndo atrás do…

- GUSMÃO! GUSMÃÃÃÃOOOOO…

Cheguei perto do nosso querido professor de geografia (e humanidade) feito aquele desenho da Felícia quando encontrava o coelhinho… Abraçando, beijando, pedindo desculpa pra irmã e sobrinha que o acompanhavam, também sem entenderem direito que tipo de maluca os estava abordando.

Enquanto os três me olhavam com olhos curiosos, eu falava com o Gusmão como se tivéssemos acabado de sair da sala, como se tivéssemos nos visto todos os dias pelos corredores da vida, como se ele não tivesse lecionado pra milhares de crianças, como se ainda fossemos as mesmas pessoas até que…

- Desculpa… Como é mesmo seu nome? Em que época mesmo eu te dei aula? Em que escola?

Vinte e cinco anos depois, lá estávamos nós adorando o reencontro mesmo precisando extrair da memória os detalhes do que um dia foi encontro. Falamos do passado mais do que do presente, era como se nos faltasse tempo…

E falamos do Dom Duarte, falei meu nome, sobrenome, falei dos nomes de tantos adolescentes que cresceram ao meu lado e eu achava que nunca esqueceria. Achava… Achava, até que ontem à noite, quando o Ganso postou fotos da turma no grupo do Facebook e rolou a seguinte troca de comentários…

- Ganso, essa de amarelo sou eu???
- Acho que não… Acho que é a Fátima.
- Caramba, Cinthya… Nem se reconhece nas fotos, menina!? Mas… Ganso… Então… Eu sou a de vermelho?
- Não. De jeito nenhum, Alê. Essa é a Patricia.

Tudo bem que nessas horas de reencontro de turma é comum a gente se perguntar que tipo de pessoa se tornou mas, ontem, depois de tantas trocas de mensagens e imagens, precisei sair do computador pra tentar lembrar de quem eu era. Não me refiro a aparência em si, mas a uma sensação quase que espiritual de transformação, de olhar pra trás com a serenidade e a medida certa do distanciamento e, curiosamente, não se reconhecer mais…

Fui pra cama, esparramei sobre ela minhas fotos guardadas, enchi os olhos de sorrisos e lembranças. E dormi em paz, abraçada a uma caixa de feições que só consigo enxergar através do afeto e não do traço. Me dei conta de que é possível que eu precise cada vez mais da ajuda de vocês para ampliar os registros do passado, mas que nada nunca me pareceu mais reconfortante do que essa certeza de vida realmente vivida que sinto quando olhamos juntos para o tempo.

Foi história demais, verdade demais. Tanta gente de coração aberto pra segurar na nossa mão, tanta honestidade nas ações… Não é à toa que, entre nós, mesmo entre os que não eram tão próximos, os reencontros sejam tão familiares. Não por falta de interesse que o passado sempre prevaleça sobre o presente nos nossos reencontros. Hoje, me pela primeira vez, me pareceu natural que a simples presença de alguém capaz de nos lembrar de quem fomos, prevaleça sobre a nossa eterna necessidade de novidades. E tudo bem se nos perdermos no meio dos traços e das nossas traças, tudo bem se amanhã ou depois cairmos todos num buraco infinito de esquecimento até do nosso próprio nome.

Rezo somente para que sempre tenhamos o Ganso pra nos mostrar as fotos, o Zé Ferrugem pra contar as histórias que realmente preferíamos esquecer. Rezo pra que permaneçam nas nossas mesas os nossos professores e, se possível, alguém pra passar a chamada, sabe? Por nada demais… Só por garantia, só pra exercitarmos o bandido do “presente”.

No final das contas, depois de ter passado a noite de ontem aqui com vocês, acordei de madrugada, babando sobre a película de uma foto linda do Edelmiro abraçado ao Marinho e liguei para aquele meu amigo. Aquele que estava comigo no carro quando encontrei com o Gusmão. Achei que era um bom momento para terminar a conversa de três anos atrás…

- Oi. Sou eu. A gente esqueceu de um detalhe sobre aquele papo de felicidade…
- Anh!?
- Lembra do Gusmão?
- Quem tá falando?
- Como assim quem tá falando?
- Alê?
- Claro!
- … O que houve? Alguma novidade sobre o projeto?
- Hum… Sim, mas não liguei por isso. Liguei pra te contar uma coisa que eu vi ontem a noite, enquanto via umas fotos da época do Dom Duarte.
- Anh? Quem… Dom o que? Porra, Alê! São cinco horas da manhã!
- Cinco!? Ainda? Ah, relaxa… Esse negócio de tempo é uma bobagem. Mas, então… Sobre aquela conversa que tivemos sobre felicidade anos atrás, lembra? Liguei pra te contar uma coisa que aprendi na única escola que parece que eu estudei… Ok. Não quero ser mal agradecida, mas… As outras? As outras nunca mais me fizeram refletir sobre o que realmente importa, nem me deram ninguém que permanecesse. E eu sei que parece batido, mas acho que cheguei num ponto que é melhor falar ou escrever, para que eu mesma não esqueça, sabe? Então, aí vai: ser feliz é já ou é jamais. Pronto… Falei. E é isso… Beijo. Fica bem. Fui.
- …

E foi assim que dei inicio ao fim de um projeto irrecusável, pra tentar recomeçar a vida de um jeito mais real e – se possível – menos virtual. Real do jeito que era quando conheci vocês, quando corro na rua atrás do Gusmão, quando esqueço de mim mesma, quando morro de saudade.



Escrito pela Alê Félix
19, maio, 2013
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Assisti um episódio de “Mad About You” ontem a noite, depois de insistir com o namorado de que era uma série super legal, que eu gostava à béça e que ia adorar rever com ele. Um único episódio e desisti. É bem escrita, os personagens são carismáticos, mas dez anos depois de ter assistido, a segunda impressão foi de que era só mais um falatório sem fim sobre relacionamento. Não sei se é porque passei a vida tentando acertar nesse departamento, se é porque já falei, escrevi e pensei demais sobre o assunto ou se é só porque começo de namoro é (quase sempre) uma delícia e faz a gente acreditar que a boa química reinará para sempre, mas putz… No que diz respeito as relações afetivas, anda cada dia mais forte a ideia de que ou elas são fáceis ou são impossíveis. Se tiver que consertar a relação, se prepara para pagar o preço da manutenção até que a lógica e a coragem necessária para seguir em frente vos separe.



Escrito pela Alê Félix
29, abril, 2013
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Teve uma vez que gostei de um rapaz que no primeiro encontro – bem no primeiro encontro – aconteceu um troço que me fez levar um prejuízo financeiro de trocentos e tantos reais. O prejuízo não teve nada a ver com ele, mas uma lembrança ficou atrelada a outra. Depois desse dia, encanei com duas coisas: A primeira é que não queria mais relacionamento nenhum que me gerasse desgaste. Fosse o desgaste financeiro, emocional ou o que quer que fosse, evitaria a todo custo relações pessoais que não fossem recíprocas e as profissionais que não me respeitassem. A segunda coisa é que eu precisava definitivamente começar a prestar atenção aos fatos e não exatamente no que eu queria ou deixava de querer, sem colocar limites para alcançar o que ou quem eu queria. Eu podia estar errada, mas decidi fazer um teste e botei na cabeça que a vida dá pra gente uma penca de sinal sobre o melhor caminho a ser seguido, atitude a ser tomada. Na maior parte dos casos, quando eu ignorava esses “sinais” (intuição, voz interior, dê o nome que quiser) era sempre um desgaste enorme, uma energia sem fim indo pelo ralo enquanto eu lutava pra ver dar certo projetos e pessoas que haviam entrado na minha vida de um jeito torto, acabavam com tudo errado e me faziam querer vomitar uma voz interior que dizia “EU TE DISSE, SUA TROUXA!”. E sei lá… Talvez, a coisa toda nem tenha tanto a ver com caminho certo ou errado, mas sim com o que é mais saudável ou necessário e a gente nem se dá conta. Às vezes, acho que a gente presta atenção e segue essas impressões mas, na maior parte do tempo, acho que não. Fica lá a voz interna dizendo “essa parada não é pra você, sai fora!”, “esse cara tem falhas terríveis de caráter, se liga!”, “essa gente não ouve, porque você continua falando?”, “as pessoas nessa mesa tem um ego que vai contaminar o seu com tudo o que você menos quer na sua vida, por que diabos você quer fazer parte disso?”.

Foi aí que decidi – de uma vez por todas – ouvir com mais atenção a minha intuição e me ligar nos prejuízos e sinais que acontecem nos momentos menos prováveis ou mais apaixonados. Decidi parar de ignorar amor menor, os olhares que não correspondem com o que diz a boca e seguir em frente. Decidi deixar de ser uma mimadinha que quer tudo o que lhe parece difícil e não dá a mínima para o que a vida me dá da forma mais doce, leve e sem grandes questões pra serem solucionadas. Decidi tudo isso há muito pouco tempo… E não se trata de uma postura conformista, não se trata de aceitar as pessoas e todo o resto sem batalhar pelo melhor, mas de sacar que diabos de papelão e papel eu quero fazer nesse mundo. Eu já me importo com muito pouca gente e muito pouco me abala pra valer, mas quero ainda mais. Não quero ao meu lado nada nem ninguém que me faça mal ou me consuma, nem por um segundo. Quero valorizar as pessoas que realmente importam, me valorizam e – principalmente – desenvolver o máximo de respeito próprio. Algo que todo mundo bate no peito dizendo que tem, mas a gente tá careca de saber o quanto é fácil se deixar desviar na primeira oferta mais atraente. Não quero mais me debater, botar fé onde só há vazio, receber amor menor do que sou capaz de dar e ainda arcar com o prejuízo. E falo sobre o prejuízo da perda ou do desperdício do nosso tempo, dos sentimentos e dos sonhos perdidos. Quero isso mais não, sabe? As melhores histórias da minha vida caíram no meu colo como se fossem presentes do céu, não foi preciso pagar ou apostar alto para preservá-las. Eram apostas fáceis, óbvias, simples e visivelmente conectadas com tudo o que sou. A vida passa rápido demais pra ser vivida com constantes lutas e necessidades de conquistas que alimentam nosso ego e detonam nosso espírito. Não vale a pena, não… Hoje, depois dessas decisões tomadas e sob o esforço de não esquecê-las, se vai me custar caro, na boa? Prefiro jogar no lixo.



Escrito pela Alê Félix
16, janeiro, 2013
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Como é difícil escolher alguém pra gostar… Às vezes, a gente olha, bate aquela coisa, uma curiosidade de saber quem é e segue o instinto. Acha bonitinho, dá espaço, conversa, conversa, conversa. Fala tudo o que já falou em tantos outros começos, pergunta tantas perguntas feitas em outros começos. Tenta dizer sim pro coração e se deixa o tempo todo levar pela emoção, mesmo quando acha que está agindo com a razão. Se interessa porque é gostoso se interessar e sentir que o interesse é reciproco. E vai deixando acontecer, vai descobrindo o tanto que há pra descobrir, vai ignorando o medo de estar errado em seus julgamentos. E o tempo vai passando sem que você se ligue de que não tem feito nada com maior intensidade do que conhecer aquele ser. Até que passa a sentir segurança, confiança no outro. Acha o máximo ter conseguido isso em tão pouco tempo ou mesmo depois de tanto tempo! Um pé atrás aqui e outro ali, mas o processo é tão legal que não dá mais pra parar e você acha que já sabe tudo ou pelo menos o suficiente e continua arriscando. E vai sacando se a figura vale a pena no que diz respeito aos valores, se teve histórias de mais ou de menos, se teve muitos traumas impossíveis, muitos amores que ainda pisoteiam seu cérebro e seus dias… Se tem filho, se já casou, se já amou, se tem amigos, família e cuidado com as pessoas e as histórias que lhe cercam. Ou, se é só mais uma dessas pessoas acostumadas a disfarçar e viver somente pra si próprio. Ignoramos defeitos possíveis, fatos concretos, histórico familiar. Ou não ignoramos, mas achamos que vai dar pé assim mesmo. E nunca se pergunta se ele está precisando de você ou querendo você. Não se pergunta direito nem o que você realmente quer. A gente tenta… Tenta ter atenção, interesse real, olha com cuidado pra ver se a pessoa construiu uma vida ou se foi a vida que lhe construiu. Se as mágoas são maiores ou menores do que as alegrias, se existe algum potencial de felicidade por ali ou se o desespero é maior do que a serenidade. Se é caso de terapia ou psiquiatria, se é chave mestra ou chave de cadeia… A gente tenta. E continua dando espaço, espera pra ver se há química, se é gostoso, se é tão gostoso que mete um medo danado no coração da gente e nos dias seguintes. Tanta coisa pra descobrir e sentir e a gente vai deixando rolar. Espera ligação, espera atenção, espera não esperar, espera reciprocidade, afinidade, cumplicidade. E junta uma história na outra, quer saber todos os gostos, os desejos, os sonhos, quer um filme inteiro do dia do nascimento até o segundo passado. E aí o tempo vai passando, a relação que você tanto queria vai se construindo, você acha que vai levar a figura pro resto da sua vida mesmo se um dia vocês se separem até que… cataplófi! Chega a conta da história e nada do seu tempo ou do seu dinheiro de volta. Você descobre que no que diz respeito ao afeto e transparência das relações, nunca há garantias. De repente, algo acontece e rompe. Alguns explicam, alguns correm das explicações como diabo da cruz, mas o ponto é que tanto faz. Quando acaba de vez, é como se elas voltassem a ser completas desconhecidas. E aí a gente se afasta, nunca mais se vê. Até que um dia você encontra a pessoa na rua, fala rapidamente, pergunta banalidades. Percebe que todo mundo sobrevive as perdas, vê que ela continua tocando a vida dela sem você e você sem ela e que tá tudo bem. Mas que a ruptura tá ali e talvez nunca mais deixe de existir. Como se fosse um corte, uma cicatriz mesmo. Você olha, acha que até que podia passar uma maquiagem e fingir que não aconteceu, mas é só um dos dois ameaçarem encostar na linha do corte e ela se rompe novamente. Acho que é só nessa hora que a gente se dá conta da passagem do nosso tempo e da energia e do desperdício que colocamos no começo das relações. Você olha pra figura tentando reconhecê-la como alguém que já foi tão importante mas percebe que diante do distanciamento do tempo e dos sentimentos, só o que fica é a sensação de termos cometido um grande equivoco. Uma busca por uma verdade que parece nunca ser possível antes que algum tipo de fim aconteça, seja ele depois de vinte anos ou mesmo depois de apenas dois meses. Por mais que a gente se esforce e acredite, parece que ninguém faz a menor ideia de quem o outro é. E quanto maior a paixão, mais cegueta a gente é, maior o susto com o passar do tempo.



Escrito pela Alê Félix
29, outubro, 2012
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No Rio… Depois de quase ter optado por passar o resto da vida sem sair de dentro da minha casa paulista, passado duas semanas achando que eu era uma completa incompetente porque não conseguia terminar um roteiro com prazo de entrega – ontem, às 20h30m, no Leme – achado força pra parar de pensar bobagem e saído da casa paulista mesmo sabendo que as oito da noite eu estaria de mãos abanando em uma reunião no Leme, depois de ter dirigido triste por quase quatro horas, depois de ter passado duas semanas arrasada, depois de ter tentado achar qualquer téco de pensamento que me fizesse escrever e parar de pensar inutilidades, depois de ter parado quinze minutos em um posto de gasolina pra não perder o sinal e uma conversa que eu precisava nem ter começado mas me incomodava há duas semanas, depois de ter caído o sinal mesmo assim, depois de ter optado por não ligar mais e continuar dirigindo pra não me atrasar na reunião, depois de ter chegado no começo da serra das Araras e ver o trânsito parando até parar totalmente e eu perceber que há momentos que não há nada que se possa fazer. Não dava pra escapar do trânsito, não dava sinal, não havia quem soubesse o porquê de toda aquela estagnação. Aproveitei o nada, aquela uma hora de carga de bateria no notebook e escrevi o que eu tinha pra escrever e entregar na reunião. Quinze minutos de estrada a frente, um acidente horrível que deixou mortos e feridos, um ônibus que rolou uma ribanceira, minha visão confusa sobre os outros carros que se envolveram no acidente. Fiquei quinze minutos pra trás. Provavelmente, graças a ligação que me fez parar um pouco antes do momento da fatalidade e depois do acidente já formado, onde fiquei quieta no canto tentando simplesmente parar de pensar e voltar a escrever. E vi tudo voltar ao normal, as ambulâncias partirem, a estrada ser liberada e o texto de que eu prometi ser terminado. Vi tudo até agora e só agora soube exatamente do tamanho do acidente que me fez parar, entregar, repensar e sarar. É tudo, tudo tão estranho entre o que sinto e vivo, de lá e cá e de cá pra lá… Tão estranho que quase vivo e não entendo o quanto é tudo sobrevivência.

PS – Pra quem soube que eu vinha pro Rio hoje a tarde e soube também do acidente que rolou na Serra das Araras: por quinze minutos, por poucos KM, eu tô bem e sem nenhum arranhão. Nem físico, nem emocional, nem profissional. E me pergunto se é isso que é sorte, quando se vê tantos feridos de fato.



Escrito pela Alê Félix
23, outubro, 2012
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Se eu pudesse me tornar a alma de uma oração, uma santa padroeira capaz de realizar algum tipo de graça, só o que eu escolheria seria me tornar a força que conduz as pessoas a seguirem adiante. Daria um jeito de vasculhar o peito de cada um dos meus devotos atrás de lembranças nítidas sobre seus atos de coragem e afeto. Mostraria o tamanho do absurdo que é o medo de seguir em frente e enfrentar qualquer que seja a situação. Abriria seus olhos para que vissem o quanto a vida nos reserva coisas boas sempre que a gente consegue acreditar em um novo caminho e segui-lo. Mostraria a eles, passo a passo, como é que se desprende de velhas amarras, ideias ultrapassadas e pessoas que não lhe façam bem. Aprenderia todos os segredos sobre como acender nosso espírito quando estamos tristes, cansados e prestes a desistir. Faria festa do meu conhecimento, entregaria meu corpo e todos os meus melhores dias de vida por qualquer fagulha de esperança que fosse possível de ser semeada e distribuída. Contente, faria qualquer graça para surgir feito sinal diante dos olhos de quem clamasse por mim… Sinal colorido de céu, susto de beija-flor beliscando o ouvido, risco de estrela cruzando o escuro, brilho nos olhos daqueles que renascem diante de uma paixão… Surgiria – até mesmo – através dos mágicos bobos, se eles estivessem dispostos a tirar meus sinais de esperança de dentro de suas cartolas, junto com aquele sorriso bonito que a gente dá quando descobre o caminho certo. Acho que eu faria qualquer coisa para ver alguém levantar e parar com a choradeira besta e preguiçosa que sempre empaca a vida de deus e o mundo, sabe? E imploraria por todos os dons, todas as preces, todos os movimentos que me ensinassem como acalmar o medo de alguém e despertasse a serenidade e o foco necessários para o próximo passo. Por comodismo ou covardia, não deixaria sujeito algum voltar atrás em suas ações. De jeito nenhum! Escolheria – sem sombras – ser o téco de luz no fim do túnel, a orientação mínima e precisa para que seguissem em frente e não desistissem de atravessar os obstáculos, as fronteiras e pessoas que insistimos em não libertar. Pediria aos poetas uma reza bonita e as pessoas de fé que chorassem um pouco por mim, que me perdoassem. Não por qualquer infidelidade que eu pudesse cometer aos meus fiéis, não por nenhuma possibilidade de desamparo, mas pela pretensão de querer oferecer aos outros tudo o que sempre busquei e nunca consegui em nenhum único segundo da minha vida.

Pra me dizer oi, o caminho atual mais frequente é por aqui… www.facebook.com/alessandrafelix



Escrito pela Alê Félix
16, outubro, 2012
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