Há uns três anos, enquanto eu dirigia e tagarelava com um amigo sobre felicidade, bati os olhos em um rosto familiar que caminhava pela calçada ao lado de duas moças e…
- E se nada sair como o que foi planejado você faz o que?
- …
- Olha, não sei… A gente vive jogando para o futuro a felicidade que deseja no presente, quando na verdade… Ei! Acho que eu conheço aquele sujeito… Hum… Quando… Quando a felicidade na verdade é só… CARACA É O GUSMÃO!
- Anh!?
Óbvio que aquele nome só faria sentido para os amigos que estudaram comigo nos anos oitenta. Interrompi o papo sobre felicidade, parei no meio da rua, larguei o amigo com cara de pastel de vento dentro do carro e sai correndo atrás do…
- GUSMÃO! GUSMÃÃÃÃOOOOO…
Cheguei perto do nosso querido professor de geografia (e humanidade) feito aquele desenho da Felícia quando encontrava o coelhinho… Abraçando, beijando, pedindo desculpa pra irmã e sobrinha que o acompanhavam, também sem entenderem direito que tipo de maluca os estava abordando.
Enquanto os três me olhavam com olhos curiosos, eu falava com o Gusmão como se tivéssemos acabado de sair da sala, como se tivéssemos nos visto todos os dias pelos corredores da vida, como se ele não tivesse lecionado pra milhares de crianças, como se ainda fossemos as mesmas pessoas até que…
- Desculpa… Como é mesmo seu nome? Em que época mesmo eu te dei aula? Em que escola?
Vinte e cinco anos depois, lá estávamos nós adorando o reencontro mesmo precisando extrair da memória os detalhes do que um dia foi encontro. Falamos do passado mais do que do presente, era como se nos faltasse tempo…
E falamos do Dom Duarte, falei meu nome, sobrenome, falei dos nomes de tantos adolescentes que cresceram ao meu lado e eu achava que nunca esqueceria. Achava… Achava, até que ontem à noite, quando o Ganso postou fotos da turma no grupo do Facebook e rolou a seguinte troca de comentários…
- Ganso, essa de amarelo sou eu???
- Acho que não… Acho que é a Fátima.
- Caramba, Cinthya… Nem se reconhece nas fotos, menina!? Mas… Ganso… Então… Eu sou a de vermelho?
- Não. De jeito nenhum, Alê. Essa é a Patricia.
Tudo bem que nessas horas de reencontro de turma é comum a gente se perguntar que tipo de pessoa se tornou mas, ontem, depois de tantas trocas de mensagens e imagens, precisei sair do computador pra tentar lembrar de quem eu era. Não me refiro a aparência em si, mas a uma sensação quase que espiritual de transformação, de olhar pra trás com a serenidade e a medida certa do distanciamento e, curiosamente, não se reconhecer mais…
Fui pra cama, esparramei sobre ela minhas fotos guardadas, enchi os olhos de sorrisos e lembranças. E dormi em paz, abraçada a uma caixa de feições que só consigo enxergar através do afeto e não do traço. Me dei conta de que é possível que eu precise cada vez mais da ajuda de vocês para ampliar os registros do passado, mas que nada nunca me pareceu mais reconfortante do que essa certeza de vida realmente vivida que sinto quando olhamos juntos para o tempo.
Foi história demais, verdade demais. Tanta gente de coração aberto pra segurar na nossa mão, tanta honestidade nas ações… Não é à toa que, entre nós, mesmo entre os que não eram tão próximos, os reencontros sejam tão familiares. Não por falta de interesse que o passado sempre prevaleça sobre o presente nos nossos reencontros. Hoje, me pela primeira vez, me pareceu natural que a simples presença de alguém capaz de nos lembrar de quem fomos, prevaleça sobre a nossa eterna necessidade de novidades. E tudo bem se nos perdermos no meio dos traços e das nossas traças, tudo bem se amanhã ou depois cairmos todos num buraco infinito de esquecimento até do nosso próprio nome.
Rezo somente para que sempre tenhamos o Ganso pra nos mostrar as fotos, o Zé Ferrugem pra contar as histórias que realmente preferíamos esquecer. Rezo pra que permaneçam nas nossas mesas os nossos professores e, se possível, alguém pra passar a chamada, sabe? Por nada demais… Só por garantia, só pra exercitarmos o bandido do “presente”.
No final das contas, depois de ter passado a noite de ontem aqui com vocês, acordei de madrugada, babando sobre a película de uma foto linda do Edelmiro abraçado ao Marinho e liguei para aquele meu amigo. Aquele que estava comigo no carro quando encontrei com o Gusmão. Achei que era um bom momento para terminar a conversa de três anos atrás…
- Oi. Sou eu. A gente esqueceu de um detalhe sobre aquele papo de felicidade…
- Anh!?
- Lembra do Gusmão?
- Quem tá falando?
- Como assim quem tá falando?
- Alê?
- Claro!
- … O que houve? Alguma novidade sobre o projeto?
- Hum… Sim, mas não liguei por isso. Liguei pra te contar uma coisa que eu vi ontem a noite, enquanto via umas fotos da época do Dom Duarte.
- Anh? Quem… Dom o que? Porra, Alê! São cinco horas da manhã!
- Cinco!? Ainda? Ah, relaxa… Esse negócio de tempo é uma bobagem. Mas, então… Sobre aquela conversa que tivemos sobre felicidade anos atrás, lembra? Liguei pra te contar uma coisa que aprendi na única escola que parece que eu estudei… Ok. Não quero ser mal agradecida, mas… As outras? As outras nunca mais me fizeram refletir sobre o que realmente importa, nem me deram ninguém que permanecesse. E eu sei que parece batido, mas acho que cheguei num ponto que é melhor falar ou escrever, para que eu mesma não esqueça, sabe? Então, aí vai: ser feliz é já ou é jamais. Pronto… Falei. E é isso… Beijo. Fica bem. Fui.
- …
E foi assim que dei inicio ao fim de um projeto irrecusável, pra tentar recomeçar a vida de um jeito mais real e – se possível – menos virtual. Real do jeito que era quando conheci vocês, quando corro na rua atrás do Gusmão, quando esqueço de mim mesma, quando morro de saudade.
Escrito pela Alê Félix
19, maio, 2013
Assisti um episódio de “Mad About You” ontem a noite, depois de insistir com o namorado de que era uma série super legal, que eu gostava à béça e que ia adorar rever com ele. Um único episódio e desisti. É bem escrita, os personagens são carismáticos, mas dez anos depois de ter assistido, a segunda impressão foi de que era só mais um falatório sem fim sobre relacionamento. Não sei se é porque passei a vida tentando acertar nesse departamento, se é porque já falei, escrevi e pensei demais sobre o assunto ou se é só porque começo de namoro é (quase sempre) uma delícia e faz a gente acreditar que a boa química reinará para sempre, mas putz… No que diz respeito as relações afetivas, anda cada dia mais forte a ideia de que ou elas são fáceis ou são impossíveis. Se tiver que consertar a relação, se prepara para pagar o preço da manutenção até que a lógica e a coragem necessária para seguir em frente vos separe.
Escrito pela Alê Félix
29, abril, 2013
Teve uma vez que gostei de um rapaz que no primeiro encontro – bem no primeiro encontro – aconteceu um troço que me fez levar um prejuízo financeiro de trocentos e tantos reais. O prejuízo não teve nada a ver com ele, mas uma lembrança ficou atrelada a outra. Depois desse dia, encanei com duas coisas: A primeira é que não queria mais relacionamento nenhum que me gerasse desgaste. Fosse o desgaste financeiro, emocional ou o que quer que fosse, evitaria a todo custo relações pessoais que não fossem recíprocas e as profissionais que não me respeitassem. A segunda coisa é que eu precisava definitivamente começar a prestar atenção aos fatos e não exatamente no que eu queria ou deixava de querer, sem colocar limites para alcançar o que ou quem eu queria. Eu podia estar errada, mas decidi fazer um teste e botei na cabeça que a vida dá pra gente uma penca de sinal sobre o melhor caminho a ser seguido, atitude a ser tomada. Na maior parte dos casos, quando eu ignorava esses “sinais” (intuição, voz interior, dê o nome que quiser) era sempre um desgaste enorme, uma energia sem fim indo pelo ralo enquanto eu lutava pra ver dar certo projetos e pessoas que haviam entrado na minha vida de um jeito torto, acabavam com tudo errado e me faziam querer vomitar uma voz interior que dizia “EU TE DISSE, SUA TROUXA!”. E sei lá… Talvez, a coisa toda nem tenha tanto a ver com caminho certo ou errado, mas sim com o que é mais saudável ou necessário e a gente nem se dá conta. Às vezes, acho que a gente presta atenção e segue essas impressões mas, na maior parte do tempo, acho que não. Fica lá a voz interna dizendo “essa parada não é pra você, sai fora!”, “esse cara tem falhas terríveis de caráter, se liga!”, “essa gente não ouve, porque você continua falando?”, “as pessoas nessa mesa tem um ego que vai contaminar o seu com tudo o que você menos quer na sua vida, por que diabos você quer fazer parte disso?”.
Foi aí que decidi – de uma vez por todas – ouvir com mais atenção a minha intuição e me ligar nos prejuízos e sinais que acontecem nos momentos menos prováveis ou mais apaixonados. Decidi parar de ignorar amor menor, os olhares que não correspondem com o que diz a boca e seguir em frente. Decidi deixar de ser uma mimadinha que quer tudo o que lhe parece difícil e não dá a mínima para o que a vida me dá da forma mais doce, leve e sem grandes questões pra serem solucionadas. Decidi tudo isso há muito pouco tempo… E não se trata de uma postura conformista, não se trata de aceitar as pessoas e todo o resto sem batalhar pelo melhor, mas de sacar que diabos de papelão e papel eu quero fazer nesse mundo. Eu já me importo com muito pouca gente e muito pouco me abala pra valer, mas quero ainda mais. Não quero ao meu lado nada nem ninguém que me faça mal ou me consuma, nem por um segundo. Quero valorizar as pessoas que realmente importam, me valorizam e – principalmente – desenvolver o máximo de respeito próprio. Algo que todo mundo bate no peito dizendo que tem, mas a gente tá careca de saber o quanto é fácil se deixar desviar na primeira oferta mais atraente. Não quero mais me debater, botar fé onde só há vazio, receber amor menor do que sou capaz de dar e ainda arcar com o prejuízo. E falo sobre o prejuízo da perda ou do desperdício do nosso tempo, dos sentimentos e dos sonhos perdidos. Quero isso mais não, sabe? As melhores histórias da minha vida caíram no meu colo como se fossem presentes do céu, não foi preciso pagar ou apostar alto para preservá-las. Eram apostas fáceis, óbvias, simples e visivelmente conectadas com tudo o que sou. A vida passa rápido demais pra ser vivida com constantes lutas e necessidades de conquistas que alimentam nosso ego e detonam nosso espírito. Não vale a pena, não… Hoje, depois dessas decisões tomadas e sob o esforço de não esquecê-las, se vai me custar caro, na boa? Prefiro jogar no lixo.

Escrito pela Alê Félix
16, janeiro, 2013
Como é difícil escolher alguém pra gostar… Às vezes, a gente olha, bate aquela coisa, uma curiosidade de saber quem é e segue o instinto. Acha bonitinho, dá espaço, conversa, conversa, conversa. Fala tudo o que já falou em tantos outros começos, pergunta tantas perguntas feitas em outros começos. Tenta dizer sim pro coração e se deixa o tempo todo levar pela emoção, mesmo quando acha que está agindo com a razão. Se interessa porque é gostoso se interessar e sentir que o interesse é reciproco. E vai deixando acontecer, vai descobrindo o tanto que há pra descobrir, vai ignorando o medo de estar errado em seus julgamentos. E o tempo vai passando sem que você se ligue de que não tem feito nada com maior intensidade do que conhecer aquele ser. Até que passa a sentir segurança, confiança no outro. Acha o máximo ter conseguido isso em tão pouco tempo ou mesmo depois de tanto tempo! Um pé atrás aqui e outro ali, mas o processo é tão legal que não dá mais pra parar e você acha que já sabe tudo ou pelo menos o suficiente e continua arriscando. E vai sacando se a figura vale a pena no que diz respeito aos valores, se teve histórias de mais ou de menos, se teve muitos traumas impossíveis, muitos amores que ainda pisoteiam seu cérebro e seus dias… Se tem filho, se já casou, se já amou, se tem amigos, família e cuidado com as pessoas e as histórias que lhe cercam. Ou, se é só mais uma dessas pessoas acostumadas a disfarçar e viver somente pra si próprio. Ignoramos defeitos possíveis, fatos concretos, histórico familiar. Ou não ignoramos, mas achamos que vai dar pé assim mesmo. E nunca se pergunta se ele está precisando de você ou querendo você. Não se pergunta direito nem o que você realmente quer. A gente tenta… Tenta ter atenção, interesse real, olha com cuidado pra ver se a pessoa construiu uma vida ou se foi a vida que lhe construiu. Se as mágoas são maiores ou menores do que as alegrias, se existe algum potencial de felicidade por ali ou se o desespero é maior do que a serenidade. Se é caso de terapia ou psiquiatria, se é chave mestra ou chave de cadeia… A gente tenta. E continua dando espaço, espera pra ver se há química, se é gostoso, se é tão gostoso que mete um medo danado no coração da gente e nos dias seguintes. Tanta coisa pra descobrir e sentir e a gente vai deixando rolar. Espera ligação, espera atenção, espera não esperar, espera reciprocidade, afinidade, cumplicidade. E junta uma história na outra, quer saber todos os gostos, os desejos, os sonhos, quer um filme inteiro do dia do nascimento até o segundo passado. E aí o tempo vai passando, a relação que você tanto queria vai se construindo, você acha que vai levar a figura pro resto da sua vida mesmo se um dia vocês se separem até que… cataplófi! Chega a conta da história e nada do seu tempo ou do seu dinheiro de volta. Você descobre que no que diz respeito ao afeto e transparência das relações, nunca há garantias. De repente, algo acontece e rompe. Alguns explicam, alguns correm das explicações como diabo da cruz, mas o ponto é que tanto faz. Quando acaba de vez, é como se elas voltassem a ser completas desconhecidas. E aí a gente se afasta, nunca mais se vê. Até que um dia você encontra a pessoa na rua, fala rapidamente, pergunta banalidades. Percebe que todo mundo sobrevive as perdas, vê que ela continua tocando a vida dela sem você e você sem ela e que tá tudo bem. Mas que a ruptura tá ali e talvez nunca mais deixe de existir. Como se fosse um corte, uma cicatriz mesmo. Você olha, acha que até que podia passar uma maquiagem e fingir que não aconteceu, mas é só um dos dois ameaçarem encostar na linha do corte e ela se rompe novamente. Acho que é só nessa hora que a gente se dá conta da passagem do nosso tempo e da energia e do desperdício que colocamos no começo das relações. Você olha pra figura tentando reconhecê-la como alguém que já foi tão importante mas percebe que diante do distanciamento do tempo e dos sentimentos, só o que fica é a sensação de termos cometido um grande equivoco. Uma busca por uma verdade que parece nunca ser possível antes que algum tipo de fim aconteça, seja ele depois de vinte anos ou mesmo depois de apenas dois meses. Por mais que a gente se esforce e acredite, parece que ninguém faz a menor ideia de quem o outro é. E quanto maior a paixão, mais cegueta a gente é, maior o susto com o passar do tempo.
Escrito pela Alê Félix
29, outubro, 2012
No Rio… Depois de quase ter optado por passar o resto da vida sem sair de dentro da minha casa paulista, passado duas semanas achando que eu era uma completa incompetente porque não conseguia terminar um roteiro com prazo de entrega – ontem, às 20h30m, no Leme – achado força pra parar de pensar bobagem e saído da casa paulista mesmo sabendo que as oito da noite eu estaria de mãos abanando em uma reunião no Leme, depois de ter dirigido triste por quase quatro horas, depois de ter passado duas semanas arrasada, depois de ter tentado achar qualquer téco de pensamento que me fizesse escrever e parar de pensar inutilidades, depois de ter parado quinze minutos em um posto de gasolina pra não perder o sinal e uma conversa que eu precisava nem ter começado mas me incomodava há duas semanas, depois de ter caído o sinal mesmo assim, depois de ter optado por não ligar mais e continuar dirigindo pra não me atrasar na reunião, depois de ter chegado no começo da serra das Araras e ver o trânsito parando até parar totalmente e eu perceber que há momentos que não há nada que se possa fazer. Não dava pra escapar do trânsito, não dava sinal, não havia quem soubesse o porquê de toda aquela estagnação. Aproveitei o nada, aquela uma hora de carga de bateria no notebook e escrevi o que eu tinha pra escrever e entregar na reunião. Quinze minutos de estrada a frente, um acidente horrível que deixou mortos e feridos, um ônibus que rolou uma ribanceira, minha visão confusa sobre os outros carros que se envolveram no acidente. Fiquei quinze minutos pra trás. Provavelmente, graças a ligação que me fez parar um pouco antes do momento da fatalidade e depois do acidente já formado, onde fiquei quieta no canto tentando simplesmente parar de pensar e voltar a escrever. E vi tudo voltar ao normal, as ambulâncias partirem, a estrada ser liberada e o texto de que eu prometi ser terminado. Vi tudo até agora e só agora soube exatamente do tamanho do acidente que me fez parar, entregar, repensar e sarar. É tudo, tudo tão estranho entre o que sinto e vivo, de lá e cá e de cá pra lá… Tão estranho que quase vivo e não entendo o quanto é tudo sobrevivência.
PS – Pra quem soube que eu vinha pro Rio hoje a tarde e soube também do acidente que rolou na Serra das Araras: por quinze minutos, por poucos KM, eu tô bem e sem nenhum arranhão. Nem físico, nem emocional, nem profissional. E me pergunto se é isso que é sorte, quando se vê tantos feridos de fato.
Escrito pela Alê Félix
23, outubro, 2012
Se eu pudesse me tornar a alma de uma oração, uma santa padroeira capaz de realizar algum tipo de graça, só o que eu escolheria seria me tornar a força que conduz as pessoas a seguirem adiante. Daria um jeito de vasculhar o peito de cada um dos meus devotos atrás de lembranças nítidas sobre seus atos de coragem e afeto. Mostraria o tamanho do absurdo que é o medo de seguir em frente e enfrentar qualquer que seja a situação. Abriria seus olhos para que vissem o quanto a vida nos reserva coisas boas sempre que a gente consegue acreditar em um novo caminho e segui-lo. Mostraria a eles, passo a passo, como é que se desprende de velhas amarras, ideias ultrapassadas e pessoas que não lhe façam bem. Aprenderia todos os segredos sobre como acender nosso espírito quando estamos tristes, cansados e prestes a desistir. Faria festa do meu conhecimento, entregaria meu corpo e todos os meus melhores dias de vida por qualquer fagulha de esperança que fosse possível de ser semeada e distribuída. Contente, faria qualquer graça para surgir feito sinal diante dos olhos de quem clamasse por mim… Sinal colorido de céu, susto de beija-flor beliscando o ouvido, risco de estrela cruzando o escuro, brilho nos olhos daqueles que renascem diante de uma paixão… Surgiria – até mesmo – através dos mágicos bobos, se eles estivessem dispostos a tirar meus sinais de esperança de dentro de suas cartolas, junto com aquele sorriso bonito que a gente dá quando descobre o caminho certo. Acho que eu faria qualquer coisa para ver alguém levantar e parar com a choradeira besta e preguiçosa que sempre empaca a vida de deus e o mundo, sabe? E imploraria por todos os dons, todas as preces, todos os movimentos que me ensinassem como acalmar o medo de alguém e despertasse a serenidade e o foco necessários para o próximo passo. Por comodismo ou covardia, não deixaria sujeito algum voltar atrás em suas ações. De jeito nenhum! Escolheria – sem sombras – ser o téco de luz no fim do túnel, a orientação mínima e precisa para que seguissem em frente e não desistissem de atravessar os obstáculos, as fronteiras e pessoas que insistimos em não libertar. Pediria aos poetas uma reza bonita e as pessoas de fé que chorassem um pouco por mim, que me perdoassem. Não por qualquer infidelidade que eu pudesse cometer aos meus fiéis, não por nenhuma possibilidade de desamparo, mas pela pretensão de querer oferecer aos outros tudo o que sempre busquei e nunca consegui em nenhum único segundo da minha vida.
Pra me dizer oi, o caminho atual mais frequente é por aqui… www.facebook.com/alessandrafelix

Escrito pela Alê Félix
16, outubro, 2012
Acelerando contra ventos de mais de 100KM/H, vendo janelas firmes arrebentarem através de pequenas brechas, brincando de ciranda como uma criança que reaprende a sorrir com o tudo e o nada que movem os abrigos.
Já tive dias muito piores em dias ensolarados e sem ameaça de chuva tropical, não seriam as tempestades e os lábios de um furacão que mudariam meu cenário. Tô tentando largar mão de me sentir inútil ou pelo menos parar um instante de viver somente para zelar pelas inutilidades que me cercam. Um tempo para o tempo, um tempo para parar o tempo. Tá tudo bem por aqui. Tanto que chega a dar vontade de sumir um tiquinho. Só um pouco. Só para me aproveitar do caos externo e colocar o interno no devido lugar.
Nova Orleans sempre esteve nos meus planos… Mas mando notícias depois que eu souber pra onde essa ventania vai me levar. Fui.
http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2012-08-28/sete-anos-apos-katrina-nova-orleans-se-prepara-para-tempestade.html
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/08/120826_isaac_tempestade_lk.shtml

http://www.flickr.com/photos/americanredcross/



Escrito pela Alê Félix
28, agosto, 2012
Sabe aquela cena clássica dos filmes adultos, mostrando um cara em um quarto, enfiado no computador, super desanimado… E aí ele pede uma pizza e aparece uma entregadora bonitona, vestida numa roupinha sexy e com uma meia-mussarela-meia-calabresa sobre os braços que levanta sua moral? Então, acho que acabei de viver a versão feminina de um troço desses aí…
Acordei um tiquinho pra baixo, sem vontade de sair da cama ou ver pessoas. Estava me sentindo borocoxo, sem graça e decidi passar o dia no quarto do hotel. Liguei o notebook, comecei a trabalhar ainda enrolada entre os lençóis, tocou a campainha. Levantei achando que ia somente avisar a camareira de que não seria necessário arrumar o quarto. Me enrolo no roupão de qualquer jeito só para atendê-la minimamente decente, abri a porta deixando só um pedacinho de rosto exibido entre o vão e me aparece um rapaz com uniforme branco, vários trécos eletrônicos pendurados na cintura e dizendo que veio consertar minha fechadura.
Achei estranho, já que o único problema que a porta parecia ter era um chiado na hora de abrir. Mas, se eu nem reclamei, como ele poderia saber?
Fiz a pergunta com meu péssimo inglês, ele perguntou se eu era brasileira, me contou que era venezuelano e mudamos rapidamente o assunto e a língua para o meu portunhol que o fazia sorrir. Eu também achei graça e, já que ele precisava trabalhar, pedi um minuto – antes de abrir-lhe a porta – pra ajeitar corretamente o laço do roupão e não parecer uma oferecida qualquer. Recolhi também minhas roupas espalhadas pelo quarto e escondi tudo dentro do armário. Só para não parecer bagunceira qualquer… Conferi no espelho a cabeleira e dei graças a deus por ter lavado o rosto e escovado os dentes logo que acordei. Mas era só para atender o rapaz decentemente e não parecer uma maluca qualquer… Nada além disso. Tudo – juro! – sem nenhuma má intenção.
Em pé diante da porta, eu o observava consertá-la com a agilidade de um mister-latin-rei-da-engenharia. Ele contou que esteve no Rio a trabalho algumas vezes, eu me exibi dizendo que conhecia bem o seu país, que já havia cruzado todo o norte da Venezuela parando de cidade em cidade e atravessando a fronteira da Venezuela com a Colômbia até chegar em Cartagena. Eu errava o tempo todo as palavras em espanhol, mas ele acertava no interesse pela história. E fazia tempo que eu não me sentia tão interessante diante do olhar de um homem, sabe? Ainda mais sem mais sem poder contar com as palavras certas…
Cinco minutos depois não havia mais barulho nas engrenagens da fechadura e ele me perguntou se eu gostava de licor. Sorri achando que era cantada, respirei fundo antes de agradecer e dizer não, mas ele fez uma ligação pelo seu rádio ultra-power-latin-rádio-dos-reis-da-engenharia pedindo que me trouxessem um café da manhã como cortesia do hotel e um cálice de licor como presente pessoal de sua parte. Tentei dizer algum não, mas ele foi mais seguro de suas ações e justificou a gentileza dizendo que era o mínimo que podia fazer diante do aborrecimento que estava me causando as nove da manhã.
A campainha tocou de novo no instante seguinte, achei que fosse ele, mas era a camareira. Uma senhora com uma pele luminosa, negra, um sorriso cordial e suave, meio doce, mas com um olhar de quem seria capaz de criar vários vudus de quem não a obedecesse. Avisei que eu não falava inglês, ela só sabia falar inglês e queria porque queria arrumar o quarto. Insisti no “not”, “thank you” e em todo o “the book is on the table” que me foi possível, peguei as toalhas novas que ela havia trazido, ela dizia algo como querer três dólares por cada uma, eu não tava entendendo bulhunfas, a dona já tava começando a transfigurar minha cara de “tô me achando sexy” para a de “tô ficando puta”, até que devolvi as toalhas pra dar fim na conversa, fechei a porta no meu “goodbye” do pré-primário e a ouvi clamar por “God” a distância.
Fechei a porta, tirei o roupão e me joguei nessa cama enorme que me abraça dos pés a cabeça toda vez que me deito sobre ela. Jogada na cama, de bruços, bumbumzão pra cima, deitadona do jeito que vim ao mundo, ouço alguém mexer na maçaneta da porta e abri-la como se eu não existisse, sem tocar campainha nem nada.
Sabe lá meu português o porquê, talvez porque eu ainda estivesse com um sorrisinho besta de feliz na cara, gritei por Deus em inglês. Nada muito histérico, mas vindo de um susto que me fez saltar da cama enquanto via a sombra de um senhor que rapidamente fechava a porta e se desculpava pela invasão.
Coloquei o roupão de banho, abri a porta já pensando em mandar todo mundo a merda no meu português italianado de bom tom e vejo um senhor de uns sessenta anos, negro, alto, alto… Um senhor de traços firmes e expressão honesta. Uma prancheta na mão, também munido de vários apetrechos eletrônicos pendurados em seu cinto de utilidades e me perguntando em espanhol se eu não havia pedido um conserto no meu chuveiro. Olhei aquela situação e mal consegui responder que não havia nada de errado com o chuveiro. Tive uma crise de riso que fez o senhor se desculpar mais uma vez, todo encabulado. Fechei a porta. Dessa vez, com o trinco.
Passei o trinco, ri das três inesperadas visitas e decidi tomar um banho e finalmente sair do quarto, parar de trabalhar e ir passear um pouco. Chuveirada boa tomada, desliguei o chuveiro e comecei a me pentear em frente ao espelho. Parei um instante e, sabe lá Deus o porquê, não estava mais me sentindo tão pra baixo. Me senti bonita, bonita… Como há alguns anos não me sentia. Abri a janela do quarto, sorri pra mim mesma, para o dia quente me chamando pra rua e fiquei com vontade de licor.
Para um homem, deve ser lindo e estimulante ver uma mulher entregar-lhe pizza, prazer e um pouco de silêncio. Mas, olha… Para uma mulher, erotismo pra valer é ela se sentir bonita através de um simples olhar, é ver um moço sorridente consertar a fechadura sem ela ter que implorar, é falar bobagem sem ter medo de errar, é receber café na cama antes de se despedir. É o desejo de nunca deixar de desejar e fazer poesia misturando licor misturado com café, as nove da manhã. É pensar que mesmo quando a gente está muito triste e se recusando a sair do quarto, a vida pode nos enviar curiosos cálices de fé para nos tirar de dentro dele.
Escrito pela Alê Félix
22, agosto, 2012