Sempre ouvi as pessoas dizendo que o ruim de ser pobre é a falta de dinheiro, o que parece óbvio para qualquer mortal, mas eu nunca achei. Sempre agradeci por ter nascido pé rapada. Quando você nasce pobre não tem muito o que fazer a não ser melhorar de vida. Por mais que seja fácil entortar os caminhos, tem que ser muito mané ou ter a vida cercada de gente muito louca para piorar a situação. Por conta desse olhar que sempre tive, a parte ruim de ter crescido em lugares pobres nunca esteve ligada diretamente ao dinheiro, mas a constatação da falta de horizontes que se espalha entre as pessoas do meio. No que diz respeito a parte financeira misturada com a falta de horizontes, por exemplo, o que doía era ver o povo se matar para ter o mínimo e pagar o máximo de suas vidas por isso. Prestação, prestação, prestação que não acaba nunca… Eu entendo perfeitamente que sem essa possibilidade algumas pessoas não teriam absolutamente nada e que a idéia dos financiamentos seja vista como a ponte que liga o sonho da realidade, mas deus do céu… Que pecado fazem com a vida delas. Transformam a droga de uma casa própria que custa dez em cem, o carro que custa um vira dez, o que deveria ser kit básico de sobrevivência se torna objetivo de vida e para nos distrair da merda da vida. Mesmo quando tudo parece óbvio, parece impossível enxergar, olhar para outros lados, questionar os meios e os fins.
Talvez, por isso, eu tenha aversão a essa mania de carrão que as pessoas têm. Dia desses cheguei a ver uma matéria (comprada, óbvio!) numa revista feminina convencendo as mulheres de que uma das táticas para se conquistar um bom homem era ter um carro bacanão e bem cuidado. Pode? Será possível que é só para mim que parece assustador um homem sentir interesse pelo carro da mulher e não pela mulher!?
Meu primeiro carro foi um Gordine conversível, comprado alegremente e devolvido uma semana depois. Quando meu pai viu o carro, quase morreu e me matou do coração. Falava sem parar que aquilo era uma lata velha, que isso, que aquilo, que ia quebrar e nem valor de mercado para venda tinha… E quem disse que eu queria vender? Mas vai explicar…
Para evitar um surto, devolvi o bicho e deixei que ele comprasse (com o meu dinheiro) o carro que ele achava mais seguro para uma pobre garotinha indefesa que atravessava a Marginal Pinheiros todo santo dia, de uma ponta a outra.
Nem tanto pelo Gordine, mas pelo conversível, eu senti muito. Eu era louca para ter um conversível… Pela sensação de liberdade que ele me passava, não pelo carro. Traumatizada, fiquei um tempo com a Marajó e depois com um Opalão quatro portas que eu amava de paixão, mas que acabei trocando por um bar de reggae. Depois disso, fiquei um tempo sem carro porque estava pobre demais para pensar em outro meio de transporte que não fosse ônibus. Alguns anos depois consegui trocar um computador 286 num Gol BX 84… Carraço, não quebrava nunca. Foi roubado na porta de casa. Se não tivessem levado, acho que estaria com ele até hoje. Insisti, comprei outro BX, um 86. Roubaram também. Pra vocês verem como são carros bons! Como odeio ser roubada, procurei um carro que não despertasse o interesse de gente desocupada e comprei o Apollo. Tô há anos com ele e há anos meus amigos e parentes enchem meu saco…
– Troca esse carro! Troca esse carro, pelamordedeus!?
– Por que eu o trocaria? Cuido regularmente do motor, da suspensão, ele não quebra nunca, não é parado em blitz nenhuma porque é carro de velho e velhos não fazem coisas erradas aos olhos dos policiais. Não preciso pagar seguro, nem IPVA, nem nada. O motor é bom, suspensão também, sou a terceira dona e ele nunca foi batido apesar de estar destruído de lataria. Ele foi se auto-destruindo naturalmente… Poderes da mãe natureza e da falta de cobertura na garagem, acho. E eu não ligo de consertar porque assim ladrão nenhum me rouba, nem eu corro o risco de arranjar um namorado que olhe mais para ele do que para mim
. 🙂
Não, ninguém entende, sou uma aberração. Um dia desses encontrei uma amiga de infância e ela só sabia rir do carro, não se conformava de eu nunca ter trocado o bicho… Meu deus! Que diferença isso pode fazer na vida de um ser humano? Na minha nunca fez, até o dia que uma outra amiga ligou dizendo…
– Impossível falar com você, hein!
– Putz… eu sei. É que tá punk lá no escritório.
– O que você quer comprar que é tão caro que está fazendo você trabalhar desse jeito?

Essa maldita pergunta me fez pensar por semanas… Foi então que percebi que tenho trabalhado porque adoro o que tenho feito e que não tinha nada a ver com trabalhar para ter coisas. Hoje, mais do que nunca meu trabalho é prazer misturado com muito dos meus ideais. E isso deveria ser bom, mas foi péssimo descobrir que eu quero muito pouca coisa além de ver os resultados dos trabalhos que tenho feito. Não gosto da idéia do trabalho pelo trabalho por mais legal que ele seja. Me parece coisa de gente viciada. Eu queria ter lista de presentes feito as outras pessoas, queria pensar em coisas que o dinheiro pudesse comprar, ter meus objetivos futeis e bobos como todo ser normal. Odiei saber que sou só uma viciada em idéias.
– Nem trocar aquela merda de carro que você tem?
– Não é uma merda de carro. Me diz quando foi que o seu quebrou e quando o meu quebrou. Diz também quanto foi que eu gastei pra consertar e quanto você gastou.
– Hum… O problema é que você não quer nada e trabalha pra caralho. Vai fazer o que com o dinheiro que ganha?
– Investir em novos projetos…?
– Alê, não é possível que você não queira uma porra de um brinco!
– …

Cara, nem eu acredito que já tenho a vida que me basta. Achei que isso só ia acontecer na velhice ou que a casa precisava ser minha ao invés de aluguel e tal, mas não… Tenho tudo que preciso. Tenho viagens em mente, uma porção de lugares que o dinheiro deve um dia pagar, mas que agora não tô a fim. Mas ok, pensei, pensei, pensei… e comecei arduamente a fazer uma lista de coisas bestas que eu quero ter e fazer. E me senti um bicho sem grandes sonhos, com desapego demais pro meu gosto. Acabou que levei a Apolleira pra funilaria e, pra não ficar dois meses sem carro, lembrei de um sonho de consumo antigo que o dinheiro poderia muito bem comprar: meu conversível!
Eu sei que é brega, que não tem nada mais anos oitenta do que ombreiras e escort XR3 conversível, mas ele foi o primeiro desejo que me veio a mente quando comecei a escrever minha lista. Então, boa hora para resolver isso. E nem me olhe com essa cara de “ai que ridícula”! Sonhos adolescentes tem a ver com horizontes, embora meu cérebro pouco criativo só me leve a um velho carro esquecido com a capota aberta. Vou fazer o que? Sou brega. É a vida.
Bom, preciso de ajuda, alguém aí sabe que tipo de cuidados são necessários na compra de um conversível? Dicas? Sugestões? Capota elétrica ou manual? Kadett ou o Escort? Não me venha com carrões caros. Sou incapaz de pagar mais por um carro do que vale uma moradia. Por mais dinheiro que eu tivesse teria vergonha de andar na rua com algo assim. Puma nem pensar! Já basta saber que por uma semana eu fui a gordinha do Gordine. Conversível sim, ponto de referência não. 😉
alefelix@gmail.com
Enquanto isso, acho que vou fazer o antes e depois do Apollo.
Fotos do antes, enquanto ele está na oficina. Tadinho do bicho, eu devo dirigir mal…
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Postado por:Alê Félix
20/09/2008
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