Fui de carro até o Burdog, coloquei o carro no estacionamento e fui a pé até a avenida Paulista atrás de algum sinal de esperança, algo que me fizesse acreditar que esses protestos não eram só mais uma bagunça manipulada por algum partido ou repleta de interesses que ferram a minha fé nesse planeta.

Até a semana passada eu não fazia nem ideia de quanto custava uma passagem de ônibus, mas graças a deus ainda não virei o tipo de pessoa que anda de carro e acha que o problema com o transporte público não lhe diz respeito. Também dou graças a deus por ainda me incluir no bolo quando digo “o povo isso ou aquilo”. Posso viver no meu mundinho classe média, mas sou gente do povo, faço parte do povo concordando ou não com a maioria. E chamo isso de senso comunitário, algo que infelizmente não aprendemos o significado na mesma época que aprendemos a falar “papai” e “mamãe”.

Sempre fui contra violência e atos de vandalismo, mas compreendo que não dê pra ter sangue de barata diante da cara de pau dos políticos que disseram ontem que não iam subir o valor da passagem e hoje já estão dizendo que vão subir alegando absurdos, quando na verdade vão subir porque baixar o valor agora é dar moral pro “povo” e aí vai ser muito difícil transformá-lo em gado novamente. Não concordo, mas compreendo que dê realmente vontade de quebrar tudo, inclusive a cara de quem quebra ou é contratado pelo governo pra quebrar tudo, porque assim o governador do estado pode pagar de defensor da lei em rede nacional dizendo que a violência desses protestos precisa ser combatida. Não concordo de jeito nenhum com a atitude de quem depreda a cidade nessas horas, mas… na boa? Mais depredada do que a vida de quem mora nas periferias e perde quatro horas do dia dentro de um ônibus pra ganhar salário mínimo, acho impossível. E me arrebenta o coração ver uma merda toda como essa, mas compreendo e sinto vontade de revidar junto com quem parte pra agressão diante de um policial que devia se posicionar do nosso lado, mas sente prazer ao enfiar spray de pimenta na nossa cara na primeira oportunidade.

Até hoje a tarde eu achava que se existia alguma liderança nesses protestos, era uma liderança burra por tê-los direcionado contra o aumento das tarifas. Agora não acho mais. Acho que pode ter sido uma boa jogada expôr toda a palhaçada que virou esse país e fazer com que até uma almofadinha feito eu saia do sofá e vá pra rua virar povo novamente. E eu espero honestamente estar certa. Espero que fique visível pra todos nós que não se trata dos vinte centavos, mas sim de uma grande insatisfação que bem ou mal tem batido na cara de todos nós. Um de puta de um saco cheio que transbordou e foi parar na rua com a bandeira que era possível. Saco cheio de tudo. Saco cheio de trabalhar mais do que viver, saco cheio de viver pra pagar impostos e enriquecer um país que não te devolve nada, nenhum centavo em qualidade de vida, segurança, saúde, infra-estrutura… nada.

Tá rolando uma guerra interessante lá fora e, como em qualquer guerra, é normal que a gente fique com medo e dúvida ao se meter no meio dela, mas tenho a leve impressão de que essa pode valer a pena. E espero que a maioria de nós pelo menos aproveite o momento pra parar de olhar pro próprio umbigo e a defenda mesmo se mantendo de fora. Não reclamamos a vida inteira de que brasileiro aceita tudo calado? Pois então… Talvez seja a hora de pararmos de reclamar do trânsito, do lugar certo pra reivindicar ou do quebra-quebra. Foco errado. Tá rolando um pingo de chance dessa briga não ser por qualquer trocado, mas sim por um bom legado. Algo que, pagando ou não essa passagem, nenhum de nós vai deixar enquanto viver for a ilusão social que é vivida hoje no Brasil.



Postado por:Alê Félix
14/06/2013
4 Comentários
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O_Maley

junho 15th, 2013 às 2:07

Gostei do seu texto. Eu me sinto um imbecil por não fazer nada a respeito dessa merda toda que está acontecendo, mas acredito que agora a parte da população que tem massa encefálica vai fazer a diferença.


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Leo

junho 17th, 2013 às 1:26

Cara… É tão simples… Não precisa ir pra rua. É só parar de pagar impostos.

Compre um pão e divida. Compre no atacado em grupos e rateie. Reduza o consumo. Vá de bike. Faça da austeridade uma forma de manifestação. Pare de comprar. Quebre empresas, boicote, abandone. Dê as costas para tudo que não está ao nosso favor, que nos intoxica com ideias faltas, sensações falsas e necessidades falsas.

Precisamos viver um ensaio sobre a lucidez ao menos uma vez.


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Izabela Ribeiro

junho 28th, 2013 às 11:34

Um comentário meio fora de lugar. Há muuitos anos atrás eu seguia o Amarula com Sucrilhos, acho até que foi o primeiro blog que acompanhei.
E hoje, no meu intervalo de almoço, de cliques em cliques sucessivos, que não me lembro nem onde começaram eu vim parar aqui. Quando desconfiei que era a mesma Alê, fui ler o “Alê o que?” e fuçar um pouco, e pra minha alegria, era a mesma! O mais gracinha, foi ver o elefantinho sentado ao rodapé da página. Na mesma hora sorri para o monitor, e soube que esse foi um do melhores reencontros que já tive!
Grande Abraço!


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Alê Félix

agosto 4th, 2013 às 23:18

🙂 Obrigada, querida. Me fez bem…
Cade voce no FB? http://www.facebook.com/alessandrafelix


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