Não guarde mágoa de um final mal escrito. Fui sua amiga, amiga e amiga… Sempre. Acima da mulher e da amante, sua amiga. Você me ensinou a abraçar, eu te ensinei a arriscar. Não me ignore depois de tantos sorrisos, do nosso tanto de beijo molhado de esperança. Reinvente minha culpa, reescreva nossa história quando achar conveniente, mas não me diga que esqueceu as tardes de chuva. Não finja que o tempo não passou ao me encontrar por acaso na rua… Não há paixão sem uma dose de lágrima, não há choro apaixonado que mereça uma vida inteira de espera. Não minta para me manter distante, não minta para me afastar da sua cama. Seus maus pensamentos são orações de devoção pelo meu corpo, tanto faz se quiser jogar fora todos os lençóis. Sinto muito por ter ligado e te acordado. Sei que é tarde, mas queria saber por onde tem andado, mostrar que aprendi a abraçar demorado. Não precisávamos ter desligado pra sempre, não precisávamos ter nos enganado. Não finja que o tempo não passou ao me encontrar por acaso na rua… Me deixa saber que num pedacinho bom da sua memória, mesmo que hoje estejamos completamente cansados um do outro, ainda há saudade pra nos fazer sorrir e bagunçar os lençóis mais um pouquinho. E, no mais, quando for capaz, me perdoa… Porque sem perdão a gente não voa.

Outro post escrito por mim em 2007… Na época, também sem título e sem um ou outro detalhe que acabei mudando agora, ao reler. Em São Paulo novamente. Feliz pelos novos olhos, triste por ser essa mulher bocó, fraca e condenada a não sarar nunca dessa maldita doença que é a saudade.



Escrito pela Alê Félix
2, agosto, 2011
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Quisera ser viciada em nicotina em vez de paixão…
Que maldita dor da abstinência é essa que reduz minhas melhores conquistas a um passeio de shopping center? Quisera fosse droga alucinógena essa estranha sensação diante dos excessos e ausências da minha singela lista de desejos. Disfarçada de paz, não há nada de barato na simplicidade.
Quisera toda essa inquietação queimasse entre o intervalo de um cigarro e outro… Pra eu ficar num canto qualquer, vendo a vida passar diante do movimento da minha mão e do vai e vem da fumaça, em silêncio… Calando os meus segredos e as suas inseguranças com breves beijos amargos e um pouquinho de dor, um gole de nada. Quisera fosse uma droga que controlasse esse meu corpo ao invés do desespero por prazer que me faz soltá-lo a galope, vestido nesse fictício manto de coragem. Quisera qualquer castidade não tornasse meus dias tão monótonos e previsíveis, e eu nunca mais precisasse me contorcer entre letras e lençóis tentando não te esquecer. Quisera me bastassem os despertadores, os créditos, os amigos anestesiados perdendo ao meu lado mais um final de dia. Quisera eu me contentasse com as nossas quinquilharias domésticas, a casinha cercada, o gozo cerceado e não implorasse à vida por tantas doses de sentimento na carne e no papel. Se assim fosse, se drogas baratas me comprassem… Nunca mais eu me daria pra você.

Escrito por mim em 2007. Na época, sem título e sem um ou outro detalhe que acabei mudando agora há pouco, ao reler. Indo para o Rio nas próximas horas… Feliz por ter mudado muito nos últimos anos e, ao mesmo tempo, tão pouco.



Escrito pela Alê Félix
28, julho, 2011
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Pesava 136 quilos e tinha força para matar um homem. Quando apareceu no cimo de um monte na reserva Kora, no Quénia, Christian já não era o leãozinho que andava ao colo e passeava de Bentley. Não via os pais adotivos há um ano. Comportava-se como um leão selvagem. Mas assim que John e Ace o chamaram, começou a correr, saltou-lhes para cima, e surpreendeu-os com um abraço. A história do leão comprado no Harrods por John Rendall e Anthony Bourke (Ace) tornou-se famosa nos anos 70. Trinta anos depois apareceu no YouTube e teve mais de oito milhões de visualizações. John Rendall, um dos autores, que diz que Christian mudou a sua vida. Ele trabalha no George Adamson Wildlife Preservation Fund e tenta alertar para os problemas ecológicos na África.

Segue entrevista feita pelo site I Informação com John Rendall:

Aquele abraço ainda sensibiliza as pessoas. O que tem de tão especial?
Quando vemos que um leão, o rei da selva, tendo uma relação com um humano, ficamos surpreendidos. É único, nunca se esperaria que ele reagisse assim. Porquê?

Ele viveu connosco durante um ano e nove meses em Londres e o resto na África na Reserva Nacional de Kora, de George Adamanson. Era um leão inteligente, muito amado e estimulado, mas nunca pensámos que a reação fosse tão intensa. Não nos viamos há um ano e George nos avisou que ele não nos reconheceria, pois parte do processo de reabilitação é ensinar os leões a se afastarem dos humanos.

Como recorda esse momento?
Foi muito emocionante. Ele fazia barulhos, ronronava… Queria saltar para cima de todos de tão feliz que estava.

Porque decidiriam comprar um leão?
Nunca esteve na lista das compras [risos]. Vimos a venda no Harrods [em 1969 a venda era permitida] e achamos que podíamos dar a ele uma vida melhor. Sou australiano e cresci com cavalos, lagartos, cangurus, cobras, mas nunca nada tão exótico. Parecia um peluche verdadeiro.
Mas ter um leão em casa não era o mesmo que ter um gato… Era muito fácil tomar conta dele. Éramos oito pessoas cuidando do Christian. Estávamos no andar em cima da loja de móveis onde trabalhávamos e o Christian tinha uma cave enorme, cheia de luz natural. Quando se portava mal, o maior castigo era deixá-lo sozinho. Os leões vivem em grupo e são o felino mais canino de todos. Se ficava muito violento ou excitado, bastava ficarmos parados e ignorá-lo, que ele percebia.

Ele era feliz em Londres. Porque decidiram levá-lo para África?
Estava cada vez maior, podia partir uma montra e magoar-se. Quando conhecemos o trabalho de George Adamson, um guru dos leões que tinha reabilitado vários, não hesitamos. Mas era arriscado levá-lo porque Christian era a quinta geração de leões domesticados.

Foi fácil a adaptação a África?
Para o Christian tudo era novo. Até as patas dele eram lisinhas, porque só andava na relva. O próprio George não estava muito convencido. Mas no caminho tudo mudou. Quando íamos para Kora, percebi que Christian tinha de fazer xixi e disse ao George para parar. Ele ficou com medo que Christian fugisse, mas eu conhecia o meu leão. Paramos, Christian saiu do carro com ar de sofrimento porque o chão tinha pedras e paus. Fez xixi e, quando lhe fiz sinal, ele saltou para o carro. George disse: “Incrível. Agora, pode chamar-me George.”

O que aconteceu ao Christian?
Em 1972, seis meses depois da nossa última visita, desapareceu. Tinha de criar o seu grupo e os leões à volta da reserva eram demasiadamente fortes. Nunca mais soubemos nada dele, o que é bom. Significa que não o caçaram, nem morreu.

O abraço que vimos seria possível entre um tratador e um animal de circo?
O único animal que pode estar num circo é um cavalo. Eles gostam de correr, saltar, é uma extensão natural da sua vida. Os leões, tigres e ursos fazem coisas que não têm nada a ver com esse padrão de vida. Vivem miseráveis, treinados de forma artificial e mais tarde ou mais cedo há acidentes. Os dias dos animais no circo estão contados. Com o Cirque du Soleil quem é que precisa ver um leão a saltar? Pode ir a África ou ao Zoo, hoje são muito melhores do que há 40 anos.



Escrito pela Alê Félix
28, julho, 2011
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Carroceiro nascido
Cavalo apanhado
Carroceiro sofrido
Cavalo maltratado
Carroceiro no limbo
Cavalo escravizado
Carroceiro perdido
Cavalo antolhado
Carroceiro abandonado
Cavalo derrubado
Carroceiro mal amado
Cavalo executado.

Depois de chorar um pouco por aqui… http://bit.ly/q0K1DG



Escrito pela Alê Félix
27, julho, 2011
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Tantas fotos…
Tanta alegria.
Tantos amigos…
Tudo é mentira.
Riso pra cá,
Pose pra lá,
Sorriso estridente, sorriso doente, de um coração vazio, de uma alma perdida.
Gente fazida,
gente sofrida,
gente sozinha.
Festa aqui,
passeio lá,
tantos convites.
Corre-corre…
besta!
Sem parar e pra nenhum lugar.
Todos publicados!
Faces expostas…
Rostos nos livros…
Pra todo mundo ver e ninguém perceber!
Não é culpa sua,
não é instabilidade minha,
não é nada contra ninguém…
A vida é que não vai além.
Parece festa, mas é só agonia.
Clica no rosto,
verá toda a rinha.
Clica no grupo,
verá a falta de companhia.
Exponha os álbuns,
verá a infelicidade da busca por instantes de felicidade.
Clica!
Lente cínica.
Dispara!
Rir pra não chorar…
Assim sempre será.
Nada disso fará sentido…
Sua dor,
sua procura,
suas lágrimas mudas.
Guarde de recordação…
O melhor olhar de espanto.
E congele seus dentes,
enquanto estiverem brancos.
Na hora do X…
Mostra pro mundo,
Seu desespero pra ser aceitável,
o seu apego por mazelas,
seu despreparo,
o peso do seu cansaço.
Todos os medos que te assombram,
inundando seus olhos,
fazendo chifrinhos no seu semblante,
vazando pela sua boca.
O que há de verdadeiro estará no seu retrato…
Inclusive sua falta de alma, caso ela tenha te abandonado.
Mente pra ele com sorriso fingido de bonito,
mente pra ela se escondendo na roupa nova,
diz que se ama colocando na parede.
Esconda sua vida das fotografias…
Não se mente tão bem para um bom fotógrafo.
Não se esforce para aparecer…
Daqui há alguns anos você também não irá se reconhecer.
Não adianta se auto-retratar…
Nenhum de nós saberá como te amar.
Trate de chorar escondido,
utilize corretivos,
disfarce as marcas,
use suas máscaras.
Películas são lembranças de lamentação para os piores amigos…
Sorria e arrependa-se de ter nascido.
Vai se achar muito vivido,
rezar por ainda não ter morrido.
Retrate sua patotinha com todo o seu amor,
vou saber que é mariquinha.
Diga que o tempo passou,
vou saber que é babaquinha.
Estica o braço e aperta o botão,
veja de perto o tamanho da solidão.
E ria na foto…
Feito hiena amarela,
lambuzada na merda,
chamando palhaçada de gargalhada.
Aparece você aqui,
abraça pra caber ali,
presta atenção no corte!
A foto fica um pouco mais,
se desfaz depois da sua morte…
Com sorte.
Não se ofenda se cortaram a sua cabeça,
talvez não tenha sido possível calar os seus olhos.
Mostra a foto pros desconhecidos,
esnoba os conhecidos,
Escancara! A felicidade… Ops! Corre. Segura ela! Onde é que ela foi parar!? Ah, ela é tímida. Não gosta de sair nas fotos.
E me desculpem qualquer coisa,
não é por maldade que aviso,
que fotografo sem cobrar,
só pra capturar,
o que você não sabe enxergar.
Não sou cartomante,
só sou boa amante,
só sei te revelar.
Meus olhos vêem… O que o seu coração sente.



Escrito pela Alê Félix
25, julho, 2011
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Se tinha uma frase que eu curtia muito ouvir era “Essa menina vive fazendo arte!”. Amava. Desde sempre. Sabia que os adultos diziam isso porque eu não fazia o que eles queriam, mas lembrava das aulas de educação artística e deixava a bronca entrar por um ouvido e sair pelo outro. Achava que finalmente havia aprendido a lição…

As aulas de matemática fundiam o meu cérebro e me deixavam deprimida, as de educação artística me faziam brilhar, nem que fosse melecando a cara na purpurina. No começo não, no começo das aulas eu era muito tímida. Mas desde sempre me parecia claro que, quando diziam pra uma criança que ela vivia fazendo arte, ela estava no caminho certo.

Nesse fim de semana encontrei com um professor que me deu aula na quarta série do primário. Eu estava dirigindo, ele caminhando, o reconheci como se nenhuma década tivésse atravessado nossas vidas. Parei o carro, corri atrás dele no meio da rua, nos abraçamos, lacrimejamos, sentamos pra conversar.

Tão velhinho que ele está… E foi um homem tão atuante nesse mundo, tão político, tão pacificador, tão pensante. Aí, ele me conta que a professora de educação artística faleceu recentemente…

E lembramos daquela senhora rechonchuda que levava pra aula um radio toca-fitas, fitas com gravações de trilhas sonoras de filmes como Hair, Tommy e tudo que ela mais amava. Colocava várias cartolinas penduradas na parede ou espalhadas pela sala, folhas de sulfite, canetas e canetinhas coloridas por todos os cantos, tintas, guaches, bambolês, e tudo mais que lhe desse na telha e tivesse disponível para suas aulas. Ela ligava o som, mandava que afastássemos as cadeiras e mesas e gritava: “Libeeeertem! Libertai-vos! Liberte sua imaginaçãããoooo… Agoooora!”.

Era criança pulando, correndo, desenhando, escrevendo, dançando, girando… E a maluca orquestrando a baderna com as mãos, cantando junto com o toca-fitas em tons de voz que eram sempre muito engraçados. Um espetáculo que durava uma meia hora, até que ela colocava um por um pra arrumar a bagunça, ordenava o silêncio e a obrigação que pediam os livros, até que tocasse o sinal para a próxima aula e próximo professor. Enquanto acalmávamos o espírito e a obedecíamos, ela cantarolava baixinho uma música que só não nos fazia rir, porque morríamos de medo dela. Era uma professora excêntrica, não tinha nada de boazinha…

Na primeira aula não consegui pular, dançar, desenhar… Fiquei quieta na minha cadeira olhando os outros alunos “libertarem suas imaginações”. Ela me deixou quieta, observando, por umas três aulas, até que um dia sentou ao meu lado e, no meio da folia,  me perguntou:

- O que você vê?
- Eu acho essa aula bonita…

Foi então que depois de um breve suspiro e olhar que se perdeu nos meus olhos, ela me ensinou sobre a arte de contemplar a arte…

- Então, vamos aprender a aplaudir?

Um minuto depois, ela batia palmas, eu batia palmas, a sala inteira batia palmas. No final, lembro dela ter feito um breve discurso sobre a importância de aplaudirmos não só a arte dos artistas, mas a arte de viver, que cada um de nós desempenhávamos respirando, sonhando, desejando, estudando, amando, trabalhando, sobrevivendo, construindo, criando filhos, reinventando as manhãs…

Foi assim que passamos a encerrar o tempo de libertação batendo palmas pra nós mesmos e para o resto da humanidade fazedora de arte.

Tímida pra burro, nas aulas eu ficava quieta, em casa fazia tudo o que os outros faziam quando ela mandava. E adorava que minha família achasse aquilo uma baderna e dissesse que eu vivia fazendo arte, pois era isso que a professora mais repetia que fizéssemos…

- Vivam! Vivam para fazer arte! Fazer arte não é fazer coisa errada! Chamem os pais de vocês para fazerem arte juntos! Fazer arte é ter uma imaginação forte! Saudável! Fazer arte é pintar! Arte é dançar! Arte de escrever, cantar, pular, amar, criar, salvar, arriscar… E nos fazia continuar a busca pelas ações mais gostosas, até que o sono chegasse e descansássemos em paz.

Me sinto aliviada de ver que eu era péssima em sala de aula, mas nunca deixei de fazer a lição de casa… Até reencontrar meu velho professor caminhando na rua, a professora de arte estava esquecida pelos cantos da minha lembrança. Saber que ela está morta e conversarmos tanto sobre a forma como ela vivia, fez com que a desenterrássemos e agradecêssemos por suas lições.

Obrigada, Guiomar… Saiba que continuo tentando viver fazendo arte mas, quando não consigo libertar minha imaginação, ainda carrego comigo o dom de bater palmas.



Escrito pela Alê Félix
20, julho, 2011
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Pouco depois de nos encontrarmos em Jacareí, rumo a Paraty, segundo as palavras dele

Já na estrada perguntei a ela que caminho pretendia fazer até Paraty – pois pensei na estrada que liga Taubaté a Ubatuba, ainda que seu trecho de serra fosse meio chatinho, pois, que me lembrasse, a qualidade do asfalto por lá não era grande coisa. Pensei (mas não sugeri) que poderíamos também descer pela Tamoios – a estrada que liga São José dos Campos a Caraguatatuba -, mas teríamos que pegar um longo caminho beirando o mar. Ao que ela me respondeu que, segundo o GPS, havia um acesso logo ali na altura de Guaratinguetá, passando por Cunha, que já daria direto na cidade de Paraty. Naquele momento alguma coisa soou na minha cabeça… Cunha… Paraty… O que eu já tinha ouvido falar desse trecho mesmo? Bem, não devia ser nada de importante… Limitei-me a responder “Legal, vamos por lá então! Bendito aparelhinho de GPS, hein?…”

Enquanto isso, pelos caminhos da minha cabeça…

No final do ano passado fiz uma viagem de carro com uma amiga que estava prestes a casar. Somos amigas desde garotinhas e, logo depois de ouvir todos os detalhes sobre a decisão dela e do namorado de morarem juntos, minha primeira reação foi:

- Despedida de solteira!

E a dela foi…

- Hum… Quantos dias?

Passamos trinta dias na Califórnia, alugamos um Mustang conversível, dirigimos de San Diego a San Francisco, entregamos o carro em Las Vegas, falimos em Bahamas e ambas confessamos que em vários momentos só o que queríamos eram poderes paranormais para nos teletransportar para nossas casas. Sabe quando alguém tem poucos graus de miopia, não usa óculos e esquece que ela aumenta com o tempo e a falta das lentes? Nossa viagem foi uma lente de três graus. Nos demos conta do passar do tempo, percebemos que não gostávamos mais das mesmas rotas e transformamos o silêncio em um terceiro passageiro.

Conclui muita coisa sobre viagens de carro na despedida de solteira da minha melhor amiga, mas as mais importantes foram:

1) Acertar a sintonia entre duas pessoas dentro de um carro é mais difícil do que atravessar o deserto de Nevada. A pé.
2) Respirar fundo. Três vezes. Principalmente quando começar a desejar que uma ilha ou alguém que você ama, desintegrem do planeta e reapareçam em Marte.
3) Sempre questione o seu GPS. Sempre.

Quando voltamos para o Brasil, quase aplaudimos o pouso do piloto no aeroporto de Guarulhos. Ela casou, eu me separei e nós duas só não nos separamos pelos bons milagres da amizade. Desde então, mesmo que seja de São Paulo a Praia Grande por uma única tarde, penso duas vezes sobre o caminho sugerido e a companhia escolhida. Sempre. Quer dizer… Quase sempre. Eu fiquei tão contente com o sim que ele me deu para aquela “viagem de uma hora pra outra” até Paraty, que realmente descartei qualquer possibilidade de algo dar errado. Além do mais, quando o GPS disse para seguirmos em frente e virarmos a direita para a cidade de Cunha, alguma coisa soou na minha cabeça… Cunha… Paraty…Virar a direita… Esse baton não tá legal… Beleza! Conheço o caminho. Não tem o que dar errado.

Não pensei em mais nada, muito menos depois de encontrá-lo em Jacareí. Esqueço da vida, ao viver a vida… Você deve saber como é. E foi estranho imaginar que o tempo passa e as pessoas realmente mudam. Estranho pensar que hoje em dia tenho mais afinidades com ele do que com uma amiga que me viu crescer e existir em tantas fases. Não é fácil acertar a sintonia das relações… As vezes a gente fala de mais, as vezes de menos. As vezes a música completa, alegra, distrai. As vezes ela atrapalha, confunde ou se faz necessária. Pessoas que conhecemos há anos se tornam completas desconhecidas da noite para o dia e, outras, que acabaram de chegar, parecem saber quem somos há trezentos anos. É estranho, mas curiosamente me parece bom…

E no banco ao lado, aos olhos dele…

Prosseguimos viagem com o excelente proseio de sempre. Acho absolutamente incrível como a gente consegue ter assunto o tempo todo, todo o tempo. Normalmente nossas conversas fluem naturalmente por horas a fio… Fizemos uma providencial parada para um café e esticar as pernas. Na altura da cidade de Aparecida, viramos à direita, rumo à segunda estrela e seguimos em frente até o amanhecer…

Mas eis que o amanhecer mal havia chegado e estava pronto para nos pegar muito cansados – e bem quando chegávamos em Cunha, depois de uma excelente estrada com um ótimo asfalto (e, deveríamos ter percebido, bem pouco trânsito). Concluímos que, faltando apenas cerca de 30 quilômetros para chegar, seria uma boa idéia descansar em algum hotel ou pousada em Cunha mesmo – até porque, por conta da FLIP, todas as pousadas DO MUNDO em Paraty deveriam estar lotadas. É lógico que rodamos aquela cidade deserta, às cinco e meia da manhã, e não nos deparamos com viv’alma. O único hotel facilmente encontrável era, na realidade, uma pousada.

E nada de ninguém atender a campainha – ainda que insistentemente tocada. Pô! Custava terem atendido? Só porque nem sequer os galos ainda tinham se aventurado para seu canto matinal? Bem, sendo assim, resolvemos então prosseguir viagem, até porque a parada e o frio intenso do lado de fora do carro serviu para despertar do cansaço. Ou seja, em última análise, tocamos a campainha e saímos correndo, tal qual velho costume de criança…

Continua… Um pouquinho de , misturado com o pouquinho de cá.



Escrito pela Alê Félix
20, julho, 2011
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Quando eu era garotinha, meus pais diziam que era só dar um beijo que sarariam meus tombos, meus cortes, meus machucados. E eu acreditava, corria chorando pra perto deles, confiante que lábio de pai e mãe era remédio pra todas as dores. Agora que não os tenho mais por perto, quando caio, eu levanto; quando corto, costuro; quando machuca, eu choro. Choro e me pergunto se seria possível beijarmos nossos próprios corações todas as vezes que eles bancam os arteiros e se dão tão mal na vida adulta, igual a quando nos arrebentávamos nas brincadeiras perigosas da nossa infância.

Beija que sara… Será?



Escrito pela Alê Félix
18, julho, 2011
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