- Eu não vou sentar aqui na última fileira!
- Nem eu lá na frente!
- Eu não enxergo!
- Eu sou muito alto!
- Eu não enxergo!
- Impossível! Só se você for cega!
- Eu sou cega!
- Xiiii. O filme vai começar.
- Droga! Nunca mais venho no cinema com você...
- Tsc...
- Hum...Sorte sua que dá pra ler.
Sorte mesmo. Porque eu teria torcido o nariz do meu querido gigante se não tivesse visto a atuação de Emile Hirsch e escutado as canções de Eddie Vedder no filme Na Natureza Selvagem. Sem contar a falta de consideração, embora ele não fizesse idéia de que só estávamos lá por causa dele e não - como tratei de convecê-lo - porque eu fazia questão de ver o filme. Calma, eu conto...
Quando vi o trailler de Na Vida Selvagem pensei em assiti-lo porque aquele maluco do Alecsander Supertramp indo atrás do Alasca se parecia levemente comigo atravessando Brasil, Venezuela, Colombia, Equador, vulcões... e fugindo de si próprio com a desculpa de que a vida vale mais do que o dinheiro que podemos ganhar. Depois, na hora de escolher o filme, encasquetei que havia algo de bom nele para os olhos do meu querido gigante. E, como ir ao cinema ainda é atividade social, tratei arrastá-lo comigo.
Meu querido gigante é um homem lindo, engraçado, bem educado por uma boa mãe, coração bom abençoado pelo pai que teve. Mas ele tem um mal terrivel que lhe aflige assim como atinge boa parte das pessoas espalhadas pelo mundo, sabe? O mal da superficialidade. Não, ele não é um homem superficial. Muito pelo contrário. Mas ele acredita nas pessoas, e nem sempre as pessoas são boas quando estão na superficie. E nem sempre importa o que elas dizem que importa. E as vezes eu olho pra ele e vejo que bem ali dentro, no fundo daquele peito, ele sente uma vontade enorme de fazer tudo diferente... E foi por isso que achei que o filme lhe faria bem.
Não que eu saiba. Adoraria saber o que é importante nessa vida e o que não é, mas nem para mim mesma eu sei. Mas eu sei o quanto de bobagem podemos fazer com nossas vidas na tentativa de corresponder expectativas. Não sei se o Alecsander Supertramp teria sido mais ou menos feliz sendo o Chris que ele nasceu. Não sei se o certo é viver a vida que realmente queremos ou a que nossos pais gostariam. Nao sei se é certo ou não jogar uma vida simples e convencional por uma aventura. Nao sei o quanto é importante ter uma carreira, filhos, família... Não sei.
Na Natureza Selvagem faz você pensar o tempo todo sobre essas coisas. E não é um desses filmes idealistas bonitinhos que faz a gente querer largar tudo e correr atrás do nosso Alasca pessoal. Não é. É tão cansativo (mentalmente e cronologicamente) que se torna impossível não dar valor aos cotidianos comuns e até mesmo ao dinheiro que Chris tanto despreza. O filme te leva aos extremos dos conceitos de liberdade. Faz a gente querer conhecer pessoas por aí. Conhecer por conhecer. Conhecer como só conhecemos quando estamos livres. Conhecer sem segundas intenções, sem interresse algum, pelo prazer do encontro e da troca. Sai do cinema com uma porção de interrogações sociais. Me perguntando até que ponto somos capazes de perdoar e oferecer perdão, até que ponto vale a pena fugir para tentar se encontrar, até que ponto o dinheiro e as aparências nos tornam pessoas realizadas e em paz.
Chris pode ter tocado a vida de muitas pessoas, era capaz de compreender qualquer coração abandonado numa estrada. atirava o próprio corpo em situações de risco com a coragem daqueles que não temem a morte, mas não conseguiu perdoar os erros do pai e da mãe a tempo.
Talvez não haja certo ou errado, talvez só a construção da História seja importante. Não sei... Hoje em dia, me pego pensando que os vilões são tão necessários quanto os heróis, que é a tristeza de um que eleva o caráter do outro. Que toda transformação só acontece a partir de uma fragilidade descoberta e que não há nada nesse mundo que não se resolva com um pouco de ternura e paciência.
Sem problemas familiares, Chris não teria descoberto o Alasca, não teria contado sua história e influenciado a vida de tantas pessoas, não teria emocionado meu querido gigante. Se eu não tivesse perdido tanta gente que amava, não teria fugido tanto, não escreveria tanto...
Não há liberdade que se conquiste sem algumas gotas de sangue. Não deve ter outro jeito... Assim como não deve haver história boa sem uma boa dose de coragem. Chris morreu do jeito que quis e, ao contrário do que pode parecer, não entregue a própria sorte. Num mundo onde o roteiro de nossas vidas vem traçado da maternidade e nos é cobrado diariamente pelo despertador, cartão de ponto e chantagens emocionais, morrer lutando por um pedaço de céu limpo é mais do que um ato heróico, é viver uma história amor.
PS.: meu querido gigante saiu do cinema introspectivo, eu sai com a vista cansada. :-)