365 dias de solteira uv

December 12, 2008

O Opala da Sorte

Reencontrar amigos do passado nem sempre é uma experiência agradável. Luciana e Clara eram ótimas, não me deram nenhum motivo para reclamar da noite e muito menos da companhia. Mas teria sido melhor se eu tivesse ficado em casa, lido um livro, dormido cedo, acordado cedo...

"Acordar cedo no domingo pra quê? Tenho quase trinta anos, não tive filhos, estou sem marido, uma família pequena, poucos amigos e meus exs me odeiam. Ninguém merece acordar cedo em um domingo de gente solteira... Eu devia ter casado de novo."

Saí da casa da Clara depois de uns goles de café e de mais algumas gracinhas sobre a noite anterior. Intrigadíssima com o fato de ela ter um caso com um anão, me perguntando por que eu não conseguia ser tão despreendida quanto ela e Luciana, que não se importavam com absolutamente nada. Elas namoravam quem queriam, faziam o que queriam. E eu ali, andando pela cidade com aquele sol de rachar sobre a cabeça, tentando lembrar onde é que eu havia deixado meu carro, tentando organizar minhas idéias e meu passado.

"Não é bom reencontrar velhos amigos quando estamos perdidos... Muito menos quando eles estão menos perdidos que nós."

Não bastasse a onda de fracasso trazida pela ressaca dominical, estava sendo obrigada a questionar meus entraves, preconceitos, me perguntando por que eu não experimentava mais, não arriscava mais. Nunca havia ficado com um negão, nem com orientais, nunca havia beijado uma garota, ou tido um vibrador. Pertencia à turma das garotas que diziam que masturbação feminina não era necessária quando se tinha um namorado. Eu não entendia por que uma coisa excluía a outra, mas, como sempre estava namorando, realmente não pensava sobre o assunto. Nunca havia ficado por ficar. Dois rapazes ao mesmo tempo, nunca. Duas garotas? Muito menos. Casa de swing e lugares públicos? Nem pensar! Nunca. Nenhum fetiche, nenhuma fantasia muito diferente das idéias batidas das menininhas de quinze anos que sonhavam com fardas e astros do rock. Também não lembrava de ter feito absolutamente nada errado: nenhuma nota vermelha, nenhum castigo, nada que desapontasse meus pais, meus chefes, meus amigos. Vinte e nove anos de comportamento exemplar. Nem um mísero tiquinho de drogas, sexo diferente, nem rock and roll. Estava me sentindo quase uma evangélica, puritana, besta-quadrada, certinha dos infernos que só ouvia samba e bossa nova... Enquanto minhas amigas transavam com anões e tinham amizades com travestis, eu completava bodas em relações sérias com gênios da ciência da computação. Só namorava homem inteligente... A vida inteira me apaixonando por cérebros. Não que nerds não sejam sexuais, muito pelo contrário. Mas dificilmente alguém muito cerebral se auto-denominaria um domador de potrancas no meio de uma transa. Eu, no lugar da Clara, namorando um anão, aposto que o máximo que arrancaria dele seria um... “Vem com seu Bilbo Bolseiro, minha elfa”! Isso sem contar que a brincadeira geraria um bate-papo sem fim sobre a obra do Tolkien.

"Por que é que homens adoram conversar comigo?"

Era quase uma maldição. Uma maldição que me transformou na namorada ao invés da potranca. Vida mais do que simples, pessoa mais do que normal... essa era eu.
Deve ter sido o sol e a fala de café... Deu uma vontade louca de ser diferente, de ser sexual como a Clara, livre como a Luciana e parar de tratar minha libido como se ela fosse um catálogo de compras. Só conseguia pensar no que eu estava perdendo, na quantidade de experiências das quais me privei enquanto namorava, casava, noivava e discutia ficções e sentidos. Bom emprego, bons homens, boa família, boa moça... Minha vida era um tédio cheio de historinhas de amor e atitudes previsíveis. E eu não achava aquela merda de carro até que... Até que vi um cara estacionar bem na minha frente um Opala antigão, igual a um dos primeiros carros que tive. O cabeção esqueceu o vidro aberto e saiu correndo como se fosse manhã de segunda e não de domingo.

"Bando de paulistanos lelés e estressados..."

Eu não sabia onde estava o meu carro, e ele estava a fim de perder o dele. Olhei, olhei, olhei... e roubei o carro. Entrei, deu para ligar sem chave, exatamente da mesma forma que o meu ligava quando não era travada a ignição. Dei ré, primeira, segunda e tentei cantar pneu, mas não consegui.


"Sempre quis sair cantando pneus..."


O carro saiu em silêncio e, mesmo sem nunca ter transado com um anão, depois daquele momento de insanidade minha vida nunca mais foi a mesma. A boa moça morreu ali e começou o inferno... Um inferno que até hoje não sei dizer se foi bom ou ruim, mas foi tão necessário quanto deveria ser masturbação feminina, sexo por sexo e experiências sexuais por afeto.

A história continua na próxima semana...


December 7, 2008

Sorry

Pessoas, desculpem a falta de atualização das últimas semanas. Além de ter pego uma gripe violentissima que me arrancou os últimos miolos do cérebro, ainda estive completamente envolvida com a estréia de um novo projeto com as atrizes Samara Felippo e Giselle Itie. Ainda essa semana farei possível para trazer um novo post pra cá, mas, enquanto isso, espero que gostem também da nova história que estou construindo com as meninas. Beijo e obrigada pelo carinho, paciencia e mensagens deixadas. ;)

Quero Ser Ninguem

October 28, 2008

Sexto Capítulo - O Domador de Potranca.

A parede do quarto da Clara era colada à parede da sala e o urro masculino era forte o suficiente para estremecer a casa. Levei um baita susto, mas compreendi rápido que alguém devia ter dormido com ela e estava acordando bastante animado...

- Vem no pocotó! Vem no pocotó do seu domador de potranca!

Óbvio que diante da criatividade sexual do casal, eu só conseguia pensar...

"Que porra é essa"!?

Cheguei a afundar o rosto no travesseiro para não fazer barulho, mas a minha vontade de rir acabou vazando até o quarto onde eles estavam.

- Amor, acho que sua amiga bebum acordou.
- Ignora que ela desaparece... Volta aqui, volta...

Lascada, lascada e meia; caí de vez na risada.

- Com ela rindo desse jeito eu não consigo!
- Isso é pra eu aprender a nunca mais dar abrigo pra amiga desorientada!
- Devíamos ter largado ela rebolando com as meninas lá da travecolândia...
- Pra ela ter acordado nos braços da Nicole?

É nessas horas que você se dá conta de que a noite anterior pode ter sido bem mais longa e que quem ri por último realmente pode rir melhor. Estava morta de curiosidade para saber quem era o domador de potranca e sacanear a Clara pelas suas brincadeiras de cama, mas a idéia de que eu podia ter acordado nos braços de uma Nicole, me fez parar e ativar direito a memória.

"Quem diabos é Nicole"?

Minutos depois, eles apareceram na sala, arremessando almofadas sobre a minha cabeça e falando alto a ponto de fazer zumbido no meu cérebro...

- Acorda, mulher!
- Eu vou passar um café para vocês duas...

Parei de me fingir de morta e saí debaixo das cobertas para dar bom dia ao casal, mas a surpresa me fez gaguejar e mudar a expressão do rosto do sorriso para o espanto...

- Anh!? Você... Como...Que?
- Antes que você diga alguma bobagem ofensiva ou fique para sempre com esses olhos arregalados, esse é o Jorge e, sim, ele é um anão.
- Desculpa, é que... eu não esperava que o domador de...
- Não se preocupa, estou acostumado. Mas se você não lembra que fui eu que te arrastei para este sofá ontem à noite, imagina o que mais você esqueceu, hein moça!?

Jorge era o dono do bar dos anões, vizinho de Clara e um dos sujeitos mais charmosos e interessantes que eu conheceria. Clara e ele tinham uma história que eu nunca tinha visto igual, uma relação de amizade e liberdade tão forte quanto a voz dele e tão louca quanto as coisas que eles experimentavam na cama. Mas eu só soube dos detalhes depois do café, só os compreendi muito tempo depois de ter superado meus preconceitos, depois de todas as desculpas possíveis e depois de insistir que eles me contassem quem diabos era Nicole.

- Não brinca que era Nicolly com dois l e com y!
- Falei pra você que ela teria preferido uma Ni-co-le, nome de menina e não de traveca...
- Não me sacaneia, Jorge!
- Ela era uma moça sem ambigüïdades, não se preocupe...
- Pára, Clara! É sério, eu não lembro. O que aconteceu?
- Relaxa, você não transou com ninguém...
- Beijei?
- Também não...
- Então qual é a graça!?
- A graça é a gente se divertir com essa sua cara de que isso teria sido um pecado!

Clara tinha razão... Eu estava entrando em um mundo sem pecados, de olhos arregalados e morrendo de medo do que estava por vir. Mas, para alguém que um dia precisou de vodca para mudar a relação que tinha com o namorado pré-adolescente, o que mais eles podiam esperar de mim?


Continua...


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October 9, 2008

Quinto Capítulo - Ressacas

A primeira vez que tomei um porre eu tinha dezesseis anos. Precisei de vários copos de vodca, leite condensado e morango para sair do beijo na boca e começar a namorar sem roupa, como diz a música. Foi fácil aprender a gostar de bebidas doces, mas não foi nada simples aprender a lidar com os receios masculinos. O namoradinho daquela época dizia que me respeitava, não ousava tocar meu corpo, além da minha cintura, e - como eu nunca havia experimentado nada além de beijo - achava que o respeito era só falta de desejo.
O açúcar e o álcool me ajudaram a excitá-lo a ponto de ele deslizar as mãos sem tantos medos, mas - passada a cochilada pós amasso no sofá da sala - ele simplesmente acordou, disse que precisava estudar para a prova do dia seguinte e foi dizer aos amigos que havíamos transado. Por azar, meu pai ouviu a conversa da molecada na rua e correu até a nossa casa para... Me matar? Não chegou a tanto, mas lembro dele enlouquecido na porta do banheiro ordenando que eu a abrisse, e dizendo que não criaria uma vagabunda. Nem sequer cheguei a conhecer com detalhes o que havia embaixo da cueca, mas eu estava bêbada demais para explicar...
Quando consegui sair da privada e abrir a porta, pelo cheiro de vomito e pelo abatimento que denunciava parte da história, meu pai parou de gritar e se manteve em silêncio, segurando meu cabelo para que eu colocasse para fora a merda do álcool e do meu constrangimento. Passada a crise, ele foi até a cozinha, pegou uma xícara de café, pediu que eu bebesse e disse coisas que nunca devia ter esquecido:

- Você sabe por que as pessoas têm ressaca? Ressaca nada mais é do que uma reação do corpo a uma agressão sofrida. Como tudo nessa vida, bateu, levou. Você encheu seu corpo de pinga, ele só está se defendendo. Eu não vou perguntar para você o que aconteceu nessa casa, vou perguntar para aquele moleque e eu espero que ele seja homem para me dizer a verdade. Quanto a você, saiba que existe outro tipo de ressaca que chamam de ressaca moral. Mas o princípio das duas é o mesmo: alguém vai fazer você sofrer, você vai beber achando que isso fará de você uma pessoa menos covarde e, no dia seguinte, seu cérebro vai reagir do mesmo jeito que seu corpo está reagindo agora. Uma nocauteia você na privada, a outra esfrega na sua cara o quanto você foi estúpida.

Eu não tinha feito nada de errado... Nem beber foi errado. Eu só queria experimentar, oras bolas! Mas comecei a chorar... Chorar do mesmo jeito que acordei chorando depois da noitada no bar dos anões, da reação do Eduardo ao meu não, de toda a bebedeira seguinte.
Depois que a Luciana nos pegou em frente ao bar, saímos para andar de carro pela cidade e bebemos mais e mais e mais, e eu passei o resto da noite dizendo um monte de bobagem e agredindo qualquer pessoa que estivesse por perto. Não parei de mencionar o terrível mau gosto da Maria Clara por homens esquisitos e roupas de tamanhos menores que o devido, insisti que a Luciana tinha tendências homossexuais enrustidas, dancei "Conga la Conga" nas esquinas do Centro com meia dúzia de travestis e só não levei um susto maior, quando acordei e percebi que aquela não era a minha casa, porque as fotos da Clara na parede me tranqüilizaram. Quase quinze anos depois, minha covardia continuava me levando à ressaca física e moral. O que eu não esperava era que a minha tristeza me levasse à amnésica alcoólica...
A cabeça doía, o corpo não respondia direito, e o sofá da Clara não era dos mais confortáveis. A preguiça era tanta que eu mal conseguia abrir os olhos. Lembrava do fim do meu casamento, da decisão de romper temporariamente o noivado, da idéia de ficar sozinha, do quanto eu era incompetente e da sensação de rejeição que senti com o tal do Eduardo da camisa azul... Não por ele, mas pela situação. Estava me sentindo um pedaço de carne qualquer. Um vazio tão, mas tão grande que nada parecia consolar até que...

- Uuuuuu, potranca!

Continua...

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September 22, 2008

Quarto Capítulo - Quem não tem coração...

Eduardo era de uma insistência encantadora... No começo.

- Não consigo tirar os olhos de você desde que entrou por aquela porta...
- Eduardo, Eduardo da camiseta azul... O que eu faço com você?
- Fica comigo?
- Me desculpa, mas não posso. Estou curtindo reencontrar minha amiga, a gente não se via há anos e eu acho que ela ficaria chateada se voltasse do banheiro e eu ainda estivesse...
- Se você estivesse se divertindo tanto quanto ela está com aquele sujeito ali?
- Não acredito!

Maria Clara e o tal sujeito estavam quase se fundindo com a parede próxima do banheiro feminino. Como alguém sai por aí beijando a boca de alguém sem saber direito o que pode sair da boca? Tudo bem que bebida vai, copos vêm, bebida vem e... Quando vi, eu também estava sorrindo mais, conversando menos, flertando e... Beijando.
Ele tinha um metro e noventa e um de altura! O que eu podia fazer? Sem contar que alguém aumentou a música daquele lugar, as cadeiras e mesas desapareceram junto com os anões, os drinks começaram a fazer efeito sobre o meu corpo e eu fui obrigada a me calar.

- Vamos sair daqui, vamos?
- Pra onde?
- Tem um motel super legal aqui perto...
- Hum... O que é um motel "super legal"?
- Eu quero muito ficar com você...
- Você já está comigo.
- Quero tirar sua roupa...
- Mas está tão bom assim...
- Eu quero você inteira, quero comer você.
- Não...
- Não?
- Não.
- Tsc.

E, sem dizer palavra, me largou no meio de um beijo bom só porque era beijo com sorriso e me deixou com uma sensação estranha de ter sido agredida sem que houvesse um tapa. Levei um tempo para me dar conta do que havia acontecido. Acho que só compreendi depois que saí do canto e segui à procura da Clara e de um pouco de ar. Foi ela que me achou, embora eu estivesse me sentindo tão pequena que poderia ter sido pisoteada por qualquer um dos anões.

- Achei você!
- Onde você estava?
- Corre. Acabei de colocar comprimidinhos de Lactopurga no copo de cerveja daquele escroto que ficou contigo.
- Você, o quê!?
- Coloquei mesmo! Quem não tem coração, que pelo menos tenha um bom cu.
- Você não fez isso...
- Fiz, sim. Agora vamos embora porque a Luciana ligou e está nos esperando lá fora.
- E se ele passar mal!? E se morrer!? E se for alérgico a laxantes!? Você é louca!?
- Relaxa, coloquei só dois. Mentira. Três. Ok, dois e meio. Mas cagar é bom... Faz as pessoas pensarem.

Clara tinha visto o Eduardo sair de perto de mim e, em seguida, se aproximar de uma outra garota. Segundo ela, não demorou nem um minuto para que os dois se beijassem e, enquanto ele se distraía deixando o copo sobre a mesa, lá se foram os laxantes. Não tive tempo de perguntar por que diabos ela os carregava na bolsa, mas talvez fosse melhor não saber. Passei pela porta de saída com vontade de rir, chorar, gritar, desaparecer. Uma sensação esquisita de que eu estava completamente perdida. Do lado de fora, buzinando um pau velho conversível e com o rádio tocando as músicas mais ridículas dos anos oitenta, estava a Luciana.

- Aqui é proíbido estacionar, entrem logo!
- A porta não abre! Como eu entro nisso!?
- Se joga, mulher!

Enquanto Clara se acabava de rir contando os casos da noite, pendurada no banco de trás eu só conseguia cantar bem alto, deixar o vento dar na minha cara e abrir os braços para as amigas que o tempo me devolvia. O mundo realmente havia mudado, as pessoas pareciam muito mais distantes e superficiais, mas pelo menos dentro daquele carro era como se o tempo não tivesse passado. Naquela noite, era de amizade e músicas velhas que eu precisava, e não do meu olhar equivocado sobre a grandeza de um homem. Foi bom, apesar do vazio, apesar da manhã seguinte...

Continua...

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September 9, 2008

Quais são suas certezas?

Pelo menos uma dúzia de anões circulava entre as mesas do bar distribuindo correios elegantes. O lugar era irresistível, os anões uma simpatia, e foi impossível não pedir uma bebida, relaxar e entrar na brincadeira. Maria Clara conhecia todo mundo, dos freqüentadores aos funcionários. No começo, fiquei desesperada com a ausência da Luciana, mas aquela foi uma situação tão inusitada que me desarmou completamente. Clara era engraçada, com um humor quase escrachado, segura e carismática. Não sei como pude implicar com ela na época da faculdade... A julgava sem saber quem ela era, só pelo que aparentava. Grande erro, eu sei... Não demorou muito para que eu percebesse minha quantidade de erros cometidos.

O papo estava tão bom que cheguei a dispensar meu primeiro correio-elegante com a singela desculpa "moço da camiseta azul, me sinto lisonjeada, mas não vejo minha amiga há anos, acabei de me separar e estamos colocando a conversa em dia". Quando que eu ia imaginar que a pentelha da Maria Clara me faria desistir de paquerar um moço de camiseta azul, dono de tristes olhos castanhos, um sorriso largo e...


- Que homem bonito que ele é!
- Tem certeza de que vai dar área no bonitão?
- Tenho. Qualquer novidade será bem-vinda, menos outra relação.
- Você está sozinha há dois meses, criatura! Isso é um tempão e já está parecendo desculpa.
- Dois meses sozinha não é nada depois de ter passado a vida inteira namorando.
- Blá, blá, blá... Já sei de tudo isso.
- Ótimo, porque eu não quero conhecer ninguém.
- Querida, põe uma coisa na sua cabeça: os tempos mudaram! Quem está falando de "relação" é você. Já faz bastante tempo que as pessoas ficam umas com as outras por ficar. Conhecer alguém na noite não significa que você vai casar, namorar, nem nada disso.
- "Ficar" é um verbo moderno demais pra entrar na minha cabeça.
- Não é querendo agourar não, mas se prepara pra levar um susto atrás do outro. O mundo mudou e foi pra melhor! Já ouviu aquela música que diz "beijo na boca é coisa do passado, a moda agora é namorar pelado"? Presta atenção na letra porque ela é um bom exemplo do que rola na balada.
- Estou temporariamente fora dos beijos e dos pelados. E, quanto às músicas, sou mais as letras que tocavam antigamente.
- Então só nos resta beber porque, pelo visto, esqueceram de te avisar que os anos oitenta foram enterrados com o Cazuza e o Renato Russo!
- Brinde!
- À vida de solteira!


Achei que bastaria estar segura das minhas decisões e pedir para um dos anões devolver o bilhete, mas, de repente, logo depois do moço ter recebido o recado...

- Eu sou advogado. Posso cuidar da sua separação, se você quiser.

Tudo bem que, ao lado dos anões, todos naquele bar de paquera pareciam gigantes, mas o camiseta azul tinha quase dois metros de altura. Um homem daquele tamanho se curvar ao pé do meu ouvido para dizer aquilo me deixou realmente embaraçada...

- Desculpe, eu... Então... Essa é minha amiga Clara, e você...
- Eduardo.
- ...
- Eu vou ao banheiro!

Péssima hora para a Clara me deixar sozinha. Odeio perder a voz. Sem resposta, eu não sou ninguém. Sem argumentos, sou uma mulher completamente rendida. Mas tratei de respirar fundo e ter foco nos meus 365 dias de auto-suficiência, mesmo que minha libido estivesse me estapeando por aqueles quase dois metros de altura. Sim, quase: um e noventa e um. Não precisei perguntar. Toda mulher tem um dom aliado às suas fantasias e o meu é ter os melhores olhos para medir escalas de grandeza. Quer dizer, "era"... Depois daquela noite, passei a desconfiar dos meus olhos e a questionar minhas certezas.


A história continua na próxima semana...

Confira o capítulo anterior

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August 28, 2008

Antes só do que mal acompanhada?

Antes só do que mal acompanhada?

Quantos amigos de verdade você tem? Amigos verdadeiros, daqueles que, mesmo casados, aceitam sair contigo em uma noite de sábado, só pra te ajudar a regressar à solteirice. Gente que você pode ligar na alegria e na tristeza, independente do horário ou das circunstâncias. Tive pouquíssimos amigos assim... Alguns estão casados, fechados, cheios de filhos, desesperados. Outros, eu não sei direito por onde andam, os perdi de vista, com a ausência do dia-a-dia. Aliás, se há algo que eu gostaria de mudar em mim, é essa mania de me isolar quando estou namorando. Depois de ter passado anos casada e engatado um namoro no momento seguinte da separação, sobraram pouquíssimos amigos. Ok, recentemente descobri que sobrou uma amiga do tempo da faculdade...

Luciana, uma das únicas que permaneceu solteira, me ligou na semana passada depois de ter encontrado meu irmão em uma festa e pego meu número. Já fazia algum tempo que não falávamos, mas bastaram alguns minutos e foi como se nunca tivéssemos nos distanciado. Desligamos o telefone com a agenda marcada: bar no sábado. Eu, ela e Maria Clara, uma esquisitona também da época da faculdade. Fazer o quê? Elas eram muito amigas, e a Luciana era uma grande figura, alguém que eu sentia saudade. Ridículo eu ter me afastado de pessoas como ela só para viver nas minhas bolhas de casalzinho...

Um frio danado, e eu em frente de um boteco pós-adolescente, esperando uma garota que não via há anos e outra que eu sempre achei que não regulava bem das idéias. Namorando, jamais eu teria aceitado um convite como aquele. Mas, solteira e sem amigas disponíveis, a idéia de reencontrá-las parecia melhor do que passar a noite entediada no meu quarto escuro, procurando o raio de uma lâmpada que prestasse. Pensei em ligar e cancelar a saída algumas vezes, mas Maria Clara chegou antes que eu decidisse voltar para casa. Justo Maria Clara... Odeio ter que caçar assunto com quem eu não vou com a cara.


- Oi... Quanto tempo!

Nunca sei o que dizer nessas horas...

- Oi! Menina, como você está linda! Gordinha ainda, mas bem bonita.

Quanta delicadeza...

- Você também está ótima, Clara!

Ela realmente estava. Não sei mentir... Muito.

- Ah, obrigada!
- E a Luciana? Achei que vocês viriam juntas.
- Você sabe como é a Luciana... Ligou há meia hora e disse pra gente ir sem ela, que, se der, depois aparece.
- Que chato... Mas aconteceu alguma coisa? Achei que sairíamos juntas e...
- Bobagem! Não se preocupe. Vem comigo! Vou te levar a um lugar que você nunca mais vai esquecer.

Não sei o que foi pior, não ter arranjado uma boa desculpa para me mandar dali ou ter aceitado a sugestão daquela maluca, sem ter pedido detalhes sobre o lugar inesquecível. Sem muito jogo de cintura para lidar com a quase desconhecida Maria Clara, saímos do bar pós-adolescente e entramos num lugar fechadão, com cara de discoteca e repleto de...

- Anões!?
- E correio-elegante! E solteiros! Bem-vinda à vida de solteira, minha amiga!

Sabe aqueles dias que você gostaria de ter acordado com um detector de roubada? Pois é... Eu devia saber que minha intuição nunca chegou nem perto disso e seguir à risca aquele papo do "antes só do que mal acompanhada", mas era impossível raciocinar com Maria Clara me agarrando pelo pescoço e tagarelando crendices do tipo "tocar em anão traz boa sorte"?


A história continua na próxima semana...

Para ler o primeiro capitulo, clique aqui.

August 11, 2008

Participe!

"365 dias de solteira" será mais do que uma história contada aos pedaços na UOL, no site I-Todas. Além da mistura de ficção e realidade sobre relações de amor e sexo, a idéia é que a sua história se misture com a história do livro.


SE VOCÊ ESTIVESSE DE CASAMENTO MARCADO E PUDESSE ESCOLHER CADA DETALHE DA SUA DESPEDIDA DE SOLTEIRA, QUE DESEJO SECRETO VOCÊ REALIZARIA?


Ao longo do processo de escrita do livro, eu, Ian e Gustavo Gitti vamos escolher 365 depoimentos de mulheres que poderão nos contar suas histórias através de e-mail, vídeo, arquivo de audio, carta, telegrama ou o que deixar mais a vontade. Responda a pergunta acima e nos envie. Vamos adorar te conhecer.


Primeiro contato, por aqui: 365diasdesolteira@gmail.com

Primeiro capítulo da história logo aqui embaixo.

Primeiro Capitulo: A proposta

Por mais patética que seja a dor causada pelo fim de um relacionamento, o que além da morte do corpo e da miséria da vida nos faz sofrer?

Quinze anos de relacionamentos com começo, meio e fim... Dois namoradinhos da adolescência: um de abraço, um de amasso. Uma história mal contada, um noivo sem casamento, um casamento sem marido, um santo graal masculino e um fato extremamente importante: em vinte e nove anos de vida, nunca troquei uma lâmpada. Como foi que isso aconteceu? Estava aqui me fazendo a mesma pergunta...

Agora há pouco, pelada, ainda molhada do banho, com a toalha enrolada no cabelo e as pontas do pés esticadas em cima da cama, estava eu tentando trocar a lâmpada queimada do quarto pela primeira vez e pensei "Maldito pé direito alto!". E olhei para o lado, e estava sozinha. Depois da merda de um choque, me dei conta de que também nunca havia ficado solteira. Em seguida, óbvio, a lembrança da minha tragicômica lista amorosa foi inevitável...

Quatorze! Desde os quatorze anos que namorados vêm arrastando meus móveis, consertando meus chuveiros, trocando pneus e... lâmpadas! Anos de serviços prestados e eu nem sou tão frágil assim! Nem frágil, nem namoradeira, nem grande coisa. Sou um rosto normal desses que passam batido pela rua e ninguém percebe. Profissionalmente independente, mas um fracasso emocionalmente. Podia muito bem ter trocado sozinha todas as lâmpadas. Bastaria uma escada, é verdade, mas não... arranjei um namorado atrás do outro.

Marquinhos, Gustavo, Adriano, Claudio, Duda, Duda número dois, Renato, Jorge. Essa foi a minha porção de relações... Longas e finitas relações. A primeira durou seis meses, a penúltima, oito anos. E sinto como se tivesse casado com todos eles, sabe? Essa é a parte mais estranha. Era tanta tragédia e tanto desejo de ficar junto, tanta confusão em busca de um futuro mais tranqüilo, que o meu presente sempre foi estado civil: casada! Deve ter sido por conta disso, por conta da constatação desta minha inabilidade para ser solteira, que, da última vez, eu disse "não".

Sabe o que é pior? De todos eles, talvez o último, fosse o único que merecesse um grande e fervoroso "sim". Mas eu não consegui... Eu mal havia me separado do ex-marido! Depois dos anos de casada, só o que me parecia certo era enxugar minhas lágrimas e dizer a ele que eu não podia fazer aquilo... Não com ele. "Casar" não parecia mais o conto de fadas dos vinte anos. Dessa vez, eu sabia o que podia dar errado e não queria transformar meu santo graal em mais uma história previsível do santo matrimônio.

Cansado de abrir concessões para ficar ao meu lado, ele me deu um beijo na testa, cheio de silêncio. Caminhou em direção ao portão de embarque, seguiu com passos firmes, mas acabou voltando e me fez uma segunda proposta:

- E se a gente fizer o seguinte... Eu volto para a minha cidade, termino meu mestrado, me desfaço da casa, organizo minha vida para vir morar em São Paulo, independentemente de você. Você vai ter um ano inteiro pela frente. Um ano para aprender a viver sozinha, enfrentar esses seus medos, conhecer outras pessoas, colocar essa sua cabeça no lugar e pensar no que quer e no que não quer. A gente termina aqui, mas volta a se ver daqui a um ano.
Eu adoro você e não quero perder o que temos só porque você precisa de tempo.

Ele sabia que aquela não era uma desculpa esfarrapada de alguém que queria aproveitar a vida, mas não queria correr o risco de perder o que já tinha. Sabia que tínhamos uma história especial mesmo consciente do meu passado. Talvez, tenha sido por isso que sorri no meio daquela minha choradeira toda e...

- Você quer me dar 365 dias de solteira? É isso?
- Não. Estou te dando 365 dias de despedida de solteira.

E agora eu estou aqui... Sexta-feira à noite, com medo de tomar outro choque, saindo no escuro para uma balada com as amigas nas próximas horas. E eu nem lembro qual foi a última vez que fiz isso. Acho que as festas nem se chamavam "balada" naquela época... Eram apenas festas. Festas que eu nunca aproveitei. Será que agora é tarde demais? Não sei, mas eu tenho trezentos e sessenta e cinco dias para descobrir e só me resta tentar.

Continua...