O Opala da Sorte
Reencontrar amigos do passado nem sempre é uma experiência agradável. Luciana e Clara eram ótimas, não me deram nenhum motivo para reclamar da noite e muito menos da companhia. Mas teria sido melhor se eu tivesse ficado em casa, lido um livro, dormido cedo, acordado cedo...
"Acordar cedo no domingo pra quê? Tenho quase trinta anos, não tive filhos, estou sem marido, uma família pequena, poucos amigos e meus exs me odeiam. Ninguém merece acordar cedo em um domingo de gente solteira... Eu devia ter casado de novo."
Saí da casa da Clara depois de uns goles de café e de mais algumas gracinhas sobre a noite anterior. Intrigadíssima com o fato de ela ter um caso com um anão, me perguntando por que eu não conseguia ser tão despreendida quanto ela e Luciana, que não se importavam com absolutamente nada. Elas namoravam quem queriam, faziam o que queriam. E eu ali, andando pela cidade com aquele sol de rachar sobre a cabeça, tentando lembrar onde é que eu havia deixado meu carro, tentando organizar minhas idéias e meu passado.
"Não é bom reencontrar velhos amigos quando estamos perdidos... Muito menos quando eles estão menos perdidos que nós."
Não bastasse a onda de fracasso trazida pela ressaca dominical, estava sendo obrigada a questionar meus entraves, preconceitos, me perguntando por que eu não experimentava mais, não arriscava mais. Nunca havia ficado com um negão, nem com orientais, nunca havia beijado uma garota, ou tido um vibrador. Pertencia à turma das garotas que diziam que masturbação feminina não era necessária quando se tinha um namorado. Eu não entendia por que uma coisa excluía a outra, mas, como sempre estava namorando, realmente não pensava sobre o assunto. Nunca havia ficado por ficar. Dois rapazes ao mesmo tempo, nunca. Duas garotas? Muito menos. Casa de swing e lugares públicos? Nem pensar! Nunca. Nenhum fetiche, nenhuma fantasia muito diferente das idéias batidas das menininhas de quinze anos que sonhavam com fardas e astros do rock. Também não lembrava de ter feito absolutamente nada errado: nenhuma nota vermelha, nenhum castigo, nada que desapontasse meus pais, meus chefes, meus amigos. Vinte e nove anos de comportamento exemplar. Nem um mísero tiquinho de drogas, sexo diferente, nem rock and roll. Estava me sentindo quase uma evangélica, puritana, besta-quadrada, certinha dos infernos que só ouvia samba e bossa nova... Enquanto minhas amigas transavam com anões e tinham amizades com travestis, eu completava bodas em relações sérias com gênios da ciência da computação. Só namorava homem inteligente... A vida inteira me apaixonando por cérebros. Não que nerds não sejam sexuais, muito pelo contrário. Mas dificilmente alguém muito cerebral se auto-denominaria um domador de potrancas no meio de uma transa. Eu, no lugar da Clara, namorando um anão, aposto que o máximo que arrancaria dele seria um... “Vem com seu Bilbo Bolseiro, minha elfa”! Isso sem contar que a brincadeira geraria um bate-papo sem fim sobre a obra do Tolkien.
"Por que é que homens adoram conversar comigo?"
Era quase uma maldição. Uma maldição que me transformou na namorada ao invés da potranca. Vida mais do que simples, pessoa mais do que normal... essa era eu.
Deve ter sido o sol e a fala de café... Deu uma vontade louca de ser diferente, de ser sexual como a Clara, livre como a Luciana e parar de tratar minha libido como se ela fosse um catálogo de compras. Só conseguia pensar no que eu estava perdendo, na quantidade de experiências das quais me privei enquanto namorava, casava, noivava e discutia ficções e sentidos. Bom emprego, bons homens, boa família, boa moça... Minha vida era um tédio cheio de historinhas de amor e atitudes previsíveis. E eu não achava aquela merda de carro até que... Até que vi um cara estacionar bem na minha frente um Opala antigão, igual a um dos primeiros carros que tive. O cabeção esqueceu o vidro aberto e saiu correndo como se fosse manhã de segunda e não de domingo.
"Bando de paulistanos lelés e estressados..."
Eu não sabia onde estava o meu carro, e ele estava a fim de perder o dele. Olhei, olhei, olhei... e roubei o carro. Entrei, deu para ligar sem chave, exatamente da mesma forma que o meu ligava quando não era travada a ignição. Dei ré, primeira, segunda e tentei cantar pneu, mas não consegui.
"Sempre quis sair cantando pneus..."
O carro saiu em silêncio e, mesmo sem nunca ter transado com um anão, depois daquele momento de insanidade minha vida nunca mais foi a mesma. A boa moça morreu ali e começou o inferno... Um inferno que até hoje não sei dizer se foi bom ou ruim, mas foi tão necessário quanto deveria ser masturbação feminina, sexo por sexo e experiências sexuais por afeto.
A história continua na próxima semana...
